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24/08/2013

RESENHA - O Espadachim de Carvão

Ficha técnica:
Referência bibliográfica: SOLANO, Affonso. O Espadachim de Carvão. Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2013. 1ª edição, 256 páginas.
Gênero: Fantasia.
Categoria: Literatura nacional.
Ano de lançamento2013.
Série: O espadachim de carvão (Livro 1).



"No princípio, Kurgala era mar. E então Os Quatro Que São Um desceram."
Primeira Tábua Dingirï








Kurgala é um mundo abandonado por Quatro Deuses. Adapak, um jovem de pele cor de carvão e olhos brancos, é filho de um deles e vive com o pai em sua ilha sagrada afastada e idolatrada pelas diferentes espécies do mundo, onde ele tem todo o conhecimento divino a seu dispor e tem consciência de que jamais poderá deixar sua morada.

Ao completar 19 ciclos de idade, sua ilha é invadida e ele passa a ser caçado por um misterioso grupo de assassinos, o que o força a fugir para sobreviver e descobrir o porquê de tudo isso estar acontecendo, tendo apenas uma palavra como pista: IKIBU. Na busca pela identidade daqueles que desejam a morte dos Deuses de Kurgala, ele passa a se expor ao mundo pela primeira vez. Adapak terá de colocar em prática todos os conhecimentos adquiridos, inclusive a técnica de combate que estudou durante toda a sua vida. Em uma luta de sobrevivência e devoção, terá de confrontar toda a sua pureza nascida do isolamento, em um mundo desconhecido que ao mesmo tempo em que o venera, deseja sua morte; mesmo que isso possa comprometer alguns dos segredos mais antigos de Kurgala.

É sempre interessante conhecer novos lugares. Eu particularmente gosto de livros que me apresentam a um novo mundo. Em O Espadachim de Carvão somos apresentados a um mundo totalmente novo. Não apenas o ambiente é novo, mas a mitologia, os povos, os pesos, as medidas, o tempo. Tudo é novo e apresentado de forma muito natural. Tudo sempre esteve lá, você é quem deve se adaptar. Mas, nessa adaptação ao mundo de Kurgala, o leitor não está sozinho. Ele vai conhecendo Kurgala e sua história aos poucos.

O livro tem boas cenas de ação, mas também partes mais reflexivas, alternando entre o tempo atual, onde nosso protagonista, o jovem Adapak, está tentando sobreviver e descobrir de quem/do quê ele está fugindo, e o seu passado.

A história já começa no meio de uma fuga:

"O filete de luz atingiu as pálpebras de Adapak, alfinetando-lhe a consciência. Ele desviou o rosto da fresta por onde a lua espiava, piscando enquanto a memória o informava da situação.

Bosta.

Adormecera. O espadachim amaldiçoou o corpo cansado e girou a cabeça cuidadosamente para os lados, sentindo a dor lhe escorregar pela coluna vertebral,
punindo-o pelo descuido. Tinha cometido um erro grave.

Quanto tempo havia perdido? Daquele  esconderijo, o jovem de 19 ciclos de idade não tinha como saber: a pouca luminosidade que penetrava no depósito era graças às brechas e falhas na madeira das paredes, porta e janela, perfurando as trevas como lanças pálidas querendo feri-lo. O lugar contava cerca de 7 passos de comprimento por 5 de largura, abrigando um par de estantes com instrumentos de jardinagem, selas, sacos de adubo e ração envelhecida – quem quer que tenha construído o aposento abandonara-o há vários ciclos, deixando a madeira podre convidar o mofo e a poeira para ali morar.

Irritado, Adapak se levantou, cauteloso quanto ao ranger das tábuas do chão; qualquer barulho, por mais baixo que fosse, era um direito que ele havia perdido. De sentado passou para ajoelhado, colando o ouvido na parede leste: insetos orquestravam
sua melodia noturna e nada mais. 

Espere. 

As tábuas da janela dobraram-se violentamente para dentro do depósito, cuspindo farpas por cima de sua cabeça. O segundo impacto foi ainda mais forte, permitindo que a luz adentrasse livremente em feixes brancos, queimando a escuridão. Adapak moveu o corpo para o canto e desembainhou uma de suas espadas gêmeas, Igi. A lâmina de osso despertou com um silvo ao deslizar no forro da bainha, implorando para que sua superfície perfeitamente branca logo fosse maculada. Um terceiro baque agora destruía completamente o que antes era a janela do aposento, abrindo um rombo grosseiro para o mundo exterior.

Um deles entrou.”

Devo admitir que no começo o livro parece um bocado confuso, mas não é só o leitor que se sente assim, o protagonista também está completamente perdido. A ideia de colocar um personagem que, apesar do conhecimento adquirido por meio de livros e por meios sobrenaturais, é bastante ingênuo foi, na minha humilde opinião, ótima. Primeiro, porque traz uma naturalidade na forma com que as coisas são apresentadas; segundo, porque isso nos passa uma mensagem sutil: existem inúmeras coisas que você não vai aprender apenas lendo livros. Portanto, tire o traseiro da cadeira e saia do seu mundinho, porque lá fora existe um mundo de verdade que pode te ensinar muitas coisas: boas; aparentemente boas; e ruins. Apenas vivendo é que você terá reais experiências. E não importa o quanto você entenda da teoria, não importa de quem venha o conhecimento que você tem, sempre haverá algo novo que você poderá aprender.


A narrativa é bem trabalhada, dando a sensação de urgência nas lutas e cenas de ação, que necessitam delas, e um clima não enfadonho quando se está explicando ou simplesmente apresentando algo. O autor alterna os capítulos entre o presente, contado em ordem cronológica, onde nosso protagonista, o jovem Adapak, está tentando sobreviver e descobrir de quem/do quê ele está fugindo; e o passado, que não consiste em flashbacks gratuitos ou soltos, e sim em uma ferramenta bem usada para se compreender a história e conhecer melhor as personagens. Aliás, as personagens são muito bem trabalhados, pois todos têm uma personalidade única e marcante, de forma que não importa quanto tempo ele tenha aparecido, ele vai fazer alguma diferença na história.


Um universo totalmente novo exige que tudo seja novo, e é com naturalidade que ao longo do texto palavras como Dingirï, nomes como Dannum ou Enki’När, e expressões como “Pelos Quatro!” vão surgindo e ajudam o leitor a imergir em Kurgala. Reconheço que é necessário ao leitor estar aberto a entrar na história que é contada sem ressalvas, já que não há descrições Tolkienianas, o que é bom para a proposta da narrativa, que flui com naturalidade. Há sim descrições básicas sobre algumas raças e explicações sobre a religião no mundo em que se passa a história, mas elas são feitas apenas na medida necessária pra que você possa visualizar a cena e entender a história. Aí entra uma particularidade desse livro: após terminar de lê-lo você não estará satisfeito. Não que a história seja ruim. Eu dou 4.57 Jaergers¹ para a história. Só que, ao terminar a leitura do livro, o leitor fica com um gostinho de quero mais, querendo conhecer mais sobre a mitologia de Kurgala, ler as aventuras de Tamtul e Magano (série de livros de aventura preferida de Adapak), conhecer mais sobre os Círculos de Tibaul (técnica usada por Adapak nas lutas), as raças, as regiões, a flora, a fauna...  Mas, se tudo fosse entregue nesse livro, talvez ele não ficasse tão bom. A história tem um começo. Tem um meio. Tem um fim. E não há nada a acrescentar nela.

Gostei muito do livro e gostaria de ver obras complementares, como os livros que são citados dentro do livro, ou um guia ilustrado (#fikdik).



¹ Jaegers: Robôs gigantes do filme Círculo de Fogo; essa é uma referência ao programa Matando Robôs Gigantes onde eles dão notas de 0 a 5 robôs gigantes e, às vezes, escolhem um robô para complementar a nota.


Nascido em 13 de novembro de 1981, o carioca Affonso Solano é ilustrador, podcaster², colunista e, claro, escritor. Gosta de heavy metal, balinhas de coco e acredita em extraterrestres. É um grande fã de Arnold Schwarzenegger e das obras de Stephen King.  E não é chegado a lutas (MMA), futebol e cerveja.

Para conhecê-lo melhor vale a pena ouvir o podcast³ Matando Robôs Gigantes, do qual ele é criador, ao lado dos amigos Diogo Braga e Roberto Duque Estrada, onde podemos ouvi-lo falando com humor sobre três paixões: Games, Quadrinhos e Cinema. Sobre cinema, pode-se acompanhar também o seu trabalho no podcast RapaduraCast.

Como ilustrador, já trabalhou para clientes como TV Globo, TV Record, Image Comics e Warner/Chappel.

Affonso também trabalha como colunista de Games do site Tech Tudo, do portal Globo.com.

Durante a infância e adolescência, teve a oportunidade de viajar e morar em vários lugares do mundo, fato que contribuiu bastante na sua forma de sua ver as coisas e o comportamento humano, algo que pode ser visto em sua obra.

Em O Espadachim de Carvão podemos ver um pouco de sua arte, visto que todas as gravuras são de sua autoria.





² Podcaster: participante de podcast.
³ Podcast: arquivo de áudio digital publicado na internet; programa de rádio na internet que você pode baixar e ouvir a qualquer hora, ou assinar gratuitamente por feed.



Links:

Do Livro: SiteFacebookSkoob


                        
Bibliografia de Affonso Solano (ordem cronológica):

Livros:
  • Espadachim de Carvão – Fantasy- Casa da Palavra (2013);
Comentários
2 Comentários

2 comentários:

  1. Olha só, amei a resenha. Principalmente o trecho "Portanto, tire o traseiro da cadeira e saia do seu mundinho, porque lá fora existe um mundo de verdade que pode te ensinar muitas coisas". E fiquei mega curiosa para ler o livro. Vai entrar pra lista de leitura urgente imediatamente. E muito sucesso para o autor, que este livro seja o primeiro de muitos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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  2. Parabéns pela resenha, ótima! Deu pra se sentir no livro e até mesmo curiosa a respeito dele hahaha

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