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30/06/2014

EVENTO: Semana do Livro Nacional - DF


Bom dia, leitores!
Vocês se lembram que eu prometi novidades sobre o evento? Demorou mais enfim as trouxemos! Confiram em primeira mão o Release do nosso tão esperado evento literário!



APRESENTAÇÃO

                O projeto Semana do Livro Nacional (SLN) surgiu de uma iniciativa de autores nacionais como forma de pleitear espaço e maior visibilidade no mercado literário brasileiro. Em um cenário onde várias obras estrangeiras são fenômenos de vendas e de popularidade, comprovando que o Brasil é também um país de leitores, o SLN é uma oportunidade de apresentar a esse público leitor às obras de brasileiros e brasileiras talentosos, criativos e apaixonados pela arte de contar histórias. Trata-se, portanto, de um movimento de valorização da produção literária nacional.
               Desse modo, uma semana inteira será dedicada às publicações nacionais. Em sua segunda edição, várias cidades do território nacional sediarão eventos ao longo da semana compreendida entre os dias 19 a 27 de julho, com a participação de muitos escritores representantes de variados gêneros literários.
             A Etapa Brasília da Semana do Livro Nacional, que ocorrerá no dia 26 de julho, será organizada pela equipe do blog Academia Literária-DF em parceria com o blog Leitora Sempre, ambos incentivadores da leitura como hábito. Com a participação especialíssima de escritores residentes na própria Capital Federal, a Etapa Brasília promete uma tarde de bate papo animado, sorteio de brindes e sessão de autógrafos. É, portanto, uma oportunidade impar de se deixar inebriar por novos mundos, novas aventuras, histórias apaixonantes, amores e sonhos.

OBJETIVO

                Expor a qualidade e a diversidade da produção literária nacional e incentivar os leitores brasileiros a prestigiar as obras da pátria mãe.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS

·      Estimular o hábito da leitura;
·      Apresentar aos jovens obras com temáticas e linguagem que possa despertar seu interesse;
·      Estimular a valorização da produção nacional nos leitores veteranos;
·      Abrir espaço para o autor nacional no mercado editorial;
·      Divulgar novos talentos da literatura brasileira;
·      Fomentar a cultura nacional e local;
·      Proporcionar a proximidade entre autor e leitor.

PÚBLICO ALVO


        O evento é destinado a toda e qualquer pessoa que cultive o hábito da leitura. É principalmente também destinado aqueles que ainda não conhecem ou não deram um chance às obras nacionais, quaisquer que sejam os motivos.
            Ou seja, o evento é destinado a você leitor!

DATA E LOCAL

Livraria Cultura Casa Park, 26 de julho de 2014, a partir das 14h00.
            Link do evento: aqui!


             Mas, e os autores convidados do evento? 
          Ahhhh, isso é história para uma próxima postagem. Fiquem de olho no blog que em breve vamos liberar os prestigiados autores que irão animar nosso evento. 
             Aguardem muitas novidades!

Créditos de texto: Helkem, Resenhista da Academia Literária DF

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27/06/2014

Um Apólogo




Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima.
A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E quando compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora agora, diga-me quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: — Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

Machado de Assis

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24/06/2014

EVENTO: Lançamento do livro Entre o céu e a Terra

Bom dia, leitores!
Vamos falar de eventos!
Quem for morador de Brasília não pode ficar de fora desse lançamento! Vamos apoiar a literatura nacional!



O que é?

"Lançamento do livro Entre o céu e a Terra e sessão de autógrafos com a autora Rayanne Oliveira."

Quando?

Dia 27 de Junho (sexta), às 19:30

Onde?

Livraria Cultura - Casa Park Brasília


Link do evento: aqui


Quem vamos? A Academia Literária DF vai marcar presença!
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20/06/2014

Acauã

 


O capitão Jerônimo Ferreira, morador da antiga vila de São João Batista de Faro, voltava de uma caçada, a que fora para distrair-se do profundo pesar causado pela morte da mulher, que o deixara subitamente só com uma filhinha de dois anos de idade.
Perdida a calma habitual de velho caçador, Jerônimo Ferreira transviou-se e só conseguiu chegar às vizinhanças da vila, quando já era noite fechada.
Felizmente a sua habitação era a primeira, ao entrar na povoação pelo lado de cima, por onde vinha caminhando, e por isso não o impressionaram muito o silêncio e a solidão que a modo se tornavam mais profundos, à medida que se aproximava da vila. Ele já estava habituado à melancolia de Faro, talvez o mais triste e abandonado dos povoados do vale do Amazonas, posto que se mire nas águas do Nhamundá, o mais belo curso de água de toda a região. Faro é sempre deserta. A menos que não seja algum dia de festa, em que a gente das vizinhas fazendas venha ao povoado, quase não se encontra viva alma nas ruas. Mas se isso acontece à luz do sol, às horas de trabalho e de passeio, à noite a solidão aumenta. As ruas, quando não sai a lua, são de uma escuridão pavorosa. Desde as 7 horas da tarde, só se ouve na povoação o pio agoureiro do murucututu ou o lúgubre uivar de algum cão vagabundo, apostando queixumes com as águas múrmuras do rio.
Fecham-se todas as portas. Recolhem-se todos, com um terror vago e incerto que procuram esconjurar, invocando:
– Jesus, Maria, José!
Vinha, pois, caminhando o capitão Jerônimo a solitária estrada, pensando no bom agasalho da sua fresca rede de algodão trançado e lastimando-se de não chegar a tempo de encontrar o sorriso encantador da filha, que já estaria dormindo. Da caçada nada trazia, fora um dia infeliz, nada pudera encontrar, nem ave nem bicho, e ainda em cima perdera-se e chegava tarde, faminto e cansado. Também quem lhe mandara sair à caça em sexta-feira? Sim, era uma sexta-feira, e quando, depois de uma noite de insônia, resolvera-se a tomar a espingarda e a partir para a caça, não se lembrara que estava em um dia por todos conhecido como aziago, e especialmente temido em Faro, sobre que pesa o fado de terríveis malefícios.
Com esses pensamentos, o capitão começou a achar o caminho muito comprido, por lhe parecer que já havia muito passara o marco da jurisdição da vila. Levantou os olhos para o céu, a ver se se orientava pelas estrelas sobre o tempo decorrido. Mas não viu estrelas. Tendo andado muito tempo por baixo do arvoredo não notara que o tempo se transtornara, e achou-se de repente em uma dessas terríveis noites do Amazonas, em que o céu parece ameaçar a terra com todo o furor da sua cólera divina.
Súbito o clarão vivo de um relâmpago, rasgando o céu, mostrou o caçador, que se achava a pequena distância da vila, cujas casas, caiadas de branco, lhe apareceram numa visão efêmera. Mas pareceu-lhe que errara de novo o caminho, pois não vira a sua casinha abençoada, que devia ser a primeira a avistar. Com poucos passos mais achou-se em uma rua, mas não era a sua. Parou e pôs o ouvido à escuta, abrindo também os olhos para não perder a orientação de um novo relâmpago.
Nenhuma voz humana se fazia ouvir em toda a vila; nenhuma luz se via; nada que indicasse a existência de um ser vivente em toda a redondeza. Faro parecia morta.
Trovões furibundos começaram a atroar os ares. Relâmpagos amiudavam-se, inundando de luz rápida e viva as maltas e os grupos de habitações, que logo depois ficavam mais sombrios.
Raios caíram com fragor enorme, prostrando cedros grandes, velhos de cem anos. O capitão Jerônimo não podia mais dar um passo, nem já sabia onde estava. Mas tudo isso não era nada. Do fundo do rio, das profundezas da lagoa formada pelo Nhamundá levantava-se um ruído que foi crescendo, crescendo e se tornou um clamor horrível, insano, uma voz sem nome que dominava todos os ruídos da tempestade. Era um clamor só comparável ao brado imenso que hão de soltar os condenados no dia do Juízo Final.
Os cabelos do capitão Ferreira puseram-se de pé e duros como estacas. Ele bem sabia o que aquilo era. Aquela voz era a voz da cobra grande, da colossal sucuriju, que reside no fundo dos rios e dos lagos. Eram os lamentos do monstro em laborioso parto.
O capitão levou a mão à testa para benzer-se, mas os dedos trêmulos de medo não conseguiram fazer o sinal-da-cruz. Invocando o santo do seu nome, Jerônimo Ferreira deitou a correr na direção em que supunha dever estar a sua desejada casa. Mas a voz, a terrível voz, aumentava de volume. Cresceu mais, cresceu tanto afinal, que os ouvidos do capitão zumbiram, tremeram-lhe as pernas e caiu no limiar de uma porta.
Com a queda espantou um grande pássaro escuro que ali parecia pousado, e que voou cantando:
– Acauã, acauã!
Muito tempo esteve o capitão caído sem sentidos. Quando tornou a si, a noite estava ainda escura, mas a tempestade cessara. Um silêncio tumular reinava. Jerônimo, procurando orientar-se, olhou para a lagoa e viu que a superfície das águas tinha um brilho estranho, como se a tivessem untado de fósforo. Deixou errar o olhar sobre a toalha do rio, e um objeto estranho, afetando a forma de uma canoa, chamou-lhe a atenção. O objeto vinha impelido por uma força desconhecida em direção à praia, para o lado em que se achava Jerônimo. Este, tomado de uma curiosidade invencível, adiantou-se, meteu os pés na água e puxou para si o estranho objeto. Era com efeito uma pequena canoa, e no fundo dela estava uma criança que parecia dormir. O capitão tomou-a nos braços. Nesse momento, rompeu o sol por entre os aningais de uma ilha vizinha, cantaram os galos da vila, ladraram os cães, correu rápido o rio, perdendo o brilho desusado. Abriram-se algumas portas. À luz da manhã o capitão Jerônimo Ferreira reconheceu que caíra desmaiado justamente no limiar da sua casa.
No dia seguinte, toda a vila de Faro dizia que o capitão adotara uma linda criança, achada à beira do rio, e que se dispunha a criá-la, como própria, conjuntamente com a sua legítima Aninha.
Tratada efetivamente como filha da casa, cresceu a estranha criança, que foi batizada com o nome de Vitória.
Educada da mesma forma que Aninha, participava da mesa, dos carinhos e afagos do capitão, esquecido do modo por que a recebera.
Eram ambas moças bonitas aos catorze anos, mas tinham tipo diferente.
Ana fora uma criança robusta e sã, era agora franzina e pálida. Os anelados cabelos castanhos caíam-lhe sobre as alvas e magras espáduas. Os olhos tinham uma languidez doentia. A boca andava sempre contraída, em uma constante vontade de chorar. Raras rugas divisavam-se-lhe nos cantos da boca e na fronte baixa, algum tanto cavada. Sem que nunca a tivessem visto verter uma lágrima, Aninha tinha um ar tristonho, que a todos impressionava, e se ia tornando cada dia mais visível.
Na vila, dizia toda a gente:
– Como está magra e abatida a Aninha Ferreira, que prometia ser robusta e alegre!
Vitória era alta e magra, de compleição forte, com músculos de aço. A tez era morena, quase escura, as sobrancelhas negras e arqueadas; o queixo, fino e pontudo; as narinas dilatadas; os olhos negros, rasgados, de um brilho estranho. Apesar da incontestável formosura, tinha alguma coisa de masculino nas feições e nos modos. A boca, ornada de magníficos dentes, tinha um sorriso de gelo. Fitava com arrogância os homens até obrigá-los a baixar os olhos.
As duas companheiras afetavam a maior intimidade e ternura recíproca, mas o observador atento notaria que Aninha evitava a companhia da outra, ao passo que esta a não deixava. A filha do Jerônimo era meiga para com a companheira, mas havia nessa meiguice um certo acanhamento, uma espécie de sofrimento, uma repulsão, alguma coisa como um terror vago, quando a outra lhe cravava nos olhos dúbios e amortecidos os seus grandes olhos negros.
Nas relações de todos os dias, a voz da filha da casa era mal segura e trêmula; a de Vitória, áspera e dura. Aninha, ao pé de Vitória parecia uma escrava junto da senhora.
Tudo, porém, correu sem novidade, até o dia em que completaram quinze anos, pois se dizia que eram da mesma idade. Desse dia em diante, Jerônimo Ferreira começou a notar que a sua filha adotiva ausentava-se da casa frequentemente, em horas impróprias e suspeitas, sem nunca querer dizer por onde andava. Ao mesmo tempo que isso sucedia, Aninha ficava mais fraca e abatida. Não falava, não sorria, dois círculos arroxeados salientavam-lhe a morbidez dos grandes olhos pardos. Uma espécie de cansaço geral dos órgãos parecia que lhe ia tirando pouco a pouco a energia da vida.
Quando o pai chegava-se a ela e lhe perguntava carinhosamente: “Que tens, Aninha?”, a menina, olhando assustada para os cantos, respondia em voz cortada de soluços: “Nada, papai”.
A outra, quando Jerônimo a repreendia pelas inexplicáveis ausências, dizia com altivez e pronunciado desdém: “E que tem vosmecê com isso?”

***

Em julho desse mesmo ano o filho de um fazendeiro do Salé, que viera passar o São João em Faro, namorou-se da filha de Jerônimo e pediu-a em casamento. O rapaz era bem-apessoado, tinha alguma coisa de seu, e gozava de reputação de sério. Pai e filha anuíram gostosamente ao pedido e trataram dos preparativos do noivado. Um vago sorriso iluminava as feições delicadas de Aninha. Mas um dia que o capitão Jerônimo fumava tranquilamente o seu cigarro de tauari à porta da rua, olhando para as águas serenas do Nhamundá, a Aninha veio se aproximando dele, a passos trôpegos, hesitante e trêmula, e, como se cedesse a uma ordem irresistível, disse, balbuciando, que não queria mais casar.
– Por quê? – foi a palavra que veio naturalmente aos lábios do pai, tomado de surpresa.
Por nada, porque não queria. E juntando as mãos, a pobre menina pediu com tal expressão de sentimento, que o pai, enleado, confuso, dolorosamente agitado por um pressentimento negro, aquiesceu, vivamente contrariado.
– Pois não falemos mais nisso.
Em Faro não se falou em outra coisa durante muito tempo, senão na inconstância da Aninha Ferreira. Somente Vitória nada dizia. O fazendeiro do Salé voltou para as suas terras, prometendo vingar-se da desfeita que lhe haviam feito.
E a desconhecida moléstia da Aninha se agravava, a ponto de impressionar seriamente o capitão Jerônimo e toda a gente da vila.
“Aquilo é paixão recalcada”, diziam alguns. Mas a opinião mais aceita era que a filha do Ferreira estava enfeitiçada.
No ano seguinte, o coletor apresentou-se pretendente à filha do abastado Jerônimo Ferreira.
– Olhe, seu Ribeirinho – disse-lhe o capitão –, é se ela muito bem quiser, porque não a quero obrigar. Mas eu já lhe dou uma resposta nesta meia hora.
Foi ter com a filha e achou-a nas melhores disposições para o casamento. Mandou chamar o coletor, que se retirara discretamente, e disse-lhe muito contente:
– Toque lá, seu Ribeirinho, é negócio arranjado.
Mas daí alguns dias, Aninha foi dizer ao pai que não queria casar com o Ribeirinho.
O pai deu um pulo da rede em que se deitara havia minutos para dormir a sesta.
– Temos tolice?
E como a moça dissesse que nada era, nada tinha, mas não queria casar, terminou em voz de quem manda:
– Pois agora há de casar que o quero eu.
Aninha foi para o seu quarto e lá ficou encerrada até o dia do casamento, sem que nem pedidos nem ameaças a obrigassem a sair.
Entretanto, a agitação de Vitória era extrema.
Entrava a todo momento no quarto da companheira e saída logo depois com as feições contraídas pela ira.
Ausentava-se da casa durante muitas horas, metia-se pelos matos, dando gargalhadas que assustavam os passarinhos. Já não dirigia a palavra a seu protetor nem a pessoa alguma da casa.

***

Chegou porém o dia da celebração do casamento. Os noivos, acompanhados pelo capitão, pelos padrinhos e por quase toda a população da vila, dirigiram-se para a matriz. Notava-se com espanto a ausência da irmã adotiva da noiva. Desaparecera, e por maiores que fossem os esforços tentados para a encontrar, não lhe puderam descobrir o paradeiro. Toda a gente indagava, surpresa:
— Onde estará Vitória? Como não vem assistir ao casamento da Aninha?
O capitão franzia o sobrolho, mas a filha parecia aliviada e contente.
Afinal, como ia ficando tarde, o cortejo penetrou na matriz, e deu-se começo à cerimônia.
Mas eis que, na ocasião em que o vigário lhe perguntava se casava por seu gosto, a noiva põe-se a tremer como varas verdes, com o olhar fixo na porta lateral da sacristia.
O pai, ansioso, acompanhou a direção daquele olhar e ficou com o coração do tamanho de um grão de milho.
De pé, à porta da sacristia, hirta como uma defunta, com uma cabeleira feita de cobras, com as narinas dilatadas e a tez verde-negra, Vitória, a sua filha adotiva, fixava em Aninha um olhar horrível, olhar de demônio, olhar frio que parecia querer pregá-la imóvel no chão. A boca entreaberta mostrava a língua fina, bipartida como língua de serpente. Um leve fumo azulado saía-lhe da boca e ia subindo até o teto da igreja. Era um espetáculo sem nome!
Aninha soltou um grito de agonia e caiu com estrondo sobre os degraus do altar. Uma confusão fez-se entre os assistentes. Todos queriam acudir-lhe, mas não sabiam o que fazer. Só o capitão Jerônimo, em cuja memória aparecia de súbito a lembrança da noite em que encontrara a estranha criança, não podia despegar os olhos da pessoa de Vitória, até que esta, dando um horrível brado, desapareceu, sem se saber como.
Voltou-se então para a filha, e uma comoção profunda abalou-lhe o coração. A pobre noiva, toda vestida de branco, deitada sobre os degraus do altar-mor, estava hirta e pálida. Dois grandes fios de lágrimas, como contas de um colar desfeito, corriam-lhe pela face. E ela nunca chorara, nunca desde que nascera se lhe vira uma lágrima nos olhos!
– Lágrimas! – exclamou o capitão, ajoelhando aos pés da filha.
– Lágrimas! – clamou a multidão, tomada de espanto.
Então convulsões terríveis se apoderaram do corpo de Aninha. Retorcia-se como se fora de borracha. O seio agitava-se dolorosamente. Os dentes rangiam em fúria. Arrancava com as mãos os lindos cabelos. Os pés batiam no soalho. Os olhos reviravam-se nas órbitas, escondendo a pupila. Toda ela se maltratava, rolando como uma frenética, uivando dolorosamente.
Todos os que assistiam a essa cena estavam comovidos. O pai, debruçado sobre o corpo da filha, chorava como uma criança.
De repente a moça pareceu sossegar um pouco, mas não foi senão o princípio de uma nova crise. Inteiriçou-se. Ficou imóvel. Encolheu depois os braços, dobrou-os a modo de asas de pássaro, bateu-os por vezes nas ilhargas, e entreabrindo a boca, deixou sair um longo grito que nada tinha de humano, um grito que ecoou lugubremente pela igreja:
– Acauã!
– Jesus! – bradaram todos, caindo de joelhos.
E a moça, cerrando os olhos, como em êxtase, com o corpo imóvel, à exceção dos braços, continuou aquele canto lúgubre:
– Acauã! Acauã!
Por cima do telhado uma voz respondeu à de Aninha:
– Acauã! Acauã!
Um silêncio tumular reinou entre os assistentes. Todos compreendiam a horrível desgraça.
Era o Acauã!


Inglês de Sousa

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18/06/2014

Parceiros da Academia: Marcos DeBrito (cineasta)


Olá, leitores!
Semana passada a Academia falou um pouco sobre o lado escritor do nosso parceiro Marcos DeBrito e de sua obra “À Sombra da Lua” (se você ainda não leu clique aqui) e hoje vamos falar do seu lado cineasta.

Agora se preparem para conhecer o cineastra!!!



Primeiramente não se esqueçam de que para nossa alegria o autor está fazendo uma 
adaptação do romance “À Sombra da Lua” para o cinema.

Como já descobrimos, o autor tem cerca de 30 prêmios nacionais e internacionais nessa área. Então hoje vamos falar um pouco mais sobre esses prêmios e apresentá-los. Vamos conhecer seus curtas premiados!?

Seu primeiro trabalho finalizado em 35mm, VÍDEO SOBRE TELA recebeu um Kikito em Gramado de 2001! 
Confiram aqui.


Os filmes UNINVERSO e OD OVERDOSE DIGITAL arrecadaram diversas premiações e exibições em festivais importantes pelo Brasil e afora.

                                                          OD OVERDOSE DIGITAL

 UNINVERSO 

Devido sua particularidade visual, Marcos foi convidado a escrever e dirigir  o curta FRANÇOIS em Montreal, à convite do governo canadense. Este trabalho foi sua primeira coprodução internacional, que vocês podem conferir aqui.

Outro trabalho do autor que merece destaque é a longa metragem em produção O Condado Macabro. O filme de terror Condado Macabro foi um dos vencedores do Edital proAC 20/2012 para finalização de longa-metragem. O prêmio do Estado de SP ajudará o projeto com recurso financeiro para que seja terminado.

Pelo livro do autor, tenho certeza de que dá para esperar um ótimo enredo.

“Conta a história de cinco jovens que alugaram uma casa na cidade para passar o feriado. Tudo o que queriam eram alguns dias de diversão, porém, viram alvos de um maniaco. Cangaço, um palhaço e criminoso, é o principal suspeito de ter cometido o crime. Um filme com suspense, humor e muito sangue.

Condado Macabro

Sinopse: Cangaço, um palhaço com o rosto e mãos cobertos de sangue, está algemado em uma sala onde é interrogado por Moreira, o investigador daquela pequena cidade do interior. O homem, que praticava pequenos delitos pelo centro com o seu comparsa Bola 8, é o principal suspeito dos crimes hediondos que ocorreram em uma casa próxima da floresta. A residência fora alugada por cinco jovens que resolveram passar o feriado na cidade. Enquanto Lena tenta conquistar Théo, Beto investe suas cantadas em Mari. Ao passo que essas relações se estreitam, Vanessa desaparece e outros personagens encorpam as reviravoltas da trama. Com referências dos filmes de terror dos anos 80, Condado Macabro segue a fórmula do suspense, com muito sangue e humor.

Direção e roteiro: Marcos DeBrito Codireção e Foto: André de Campos Mello
Produção: Adriano Lírio
Duração (aprox.): 1h55m
Cor: Colorido
Som: Dolby Digital 5.1
No elenco:
Leonardo Miggiorin, Rafael Raposo, Paulo Vespúcio, Larissa Queiroz, Francisco Gaspar, Marcela Moura, Fernando de Paula, Bia Gallo, entre outros.
Para fotos, vídeos, notícias e currículo dos atores e equipe, visite o website do projeto:
Previsão de estreia: Primeiro semestre de 2014.
Filme será entregue em fevereiro para o Governo do Estado de SP e dependerá do interesse das distribuidoras para a comercialização nas salas de cinema.


Teaser do longa Condado Macabro:

Se gostou e quer  conhecer mais sobre o filme, confiram abaixo os links:
Não deixem de Conferir a RESENHA - À SOMBRA DA LUA

E não esqueçam de deixar aquele comentário importante para nós e para o autor \o/


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16/06/2014

Lançamento: O Jogo Perfeito

Bom dia, leitores! Vamos falar de lançamentos?
Nossa parceira Faro Editoral vai trazer uma nova obra: O Jogo Perfeito, de J. Sterling, o primeiro livro da trilogia The Game Series.



Sinopse:


...A VIDA ÀS VEZES FICA TRISTE ANTES DE SE TORNAR MARAVILHOSA... 

Ele é o tipo de jogo que ela nunca pensou em jogar. 
Ela é a virada no jogo que ele nunca soube que precisava. 
O jogo perfeito conta a história de dois jovens universitários, Cassie Andrews & Jack Carter. 
Quando Cassie percebe o olhar sedutor e insistente de Jack, o astro do beisebol em ascensão, ela sente o perigo e decide manter distância dele e de sua atitude arrogante. Mas Jack tem outras coisas em mente ... Acostumado a ser disputado pelas mulheres, faz tudo para conseguir ao menos um encontro com Cass. Porém, todas as suas investidas são tratadas com frieza. Ambos passaram por muitos desgostos, viviam prevenidos, cheios de desconfianças, antes de encontrar um ao outro, (e a si mesmos) nesta jornada afetiva que envolve amor e perdão.
E criam uma conexão tão intensa que não vai apenas partir o seu coração, mas restaurá-lo, devolvendo inteiro novamente.


Confiram um trecho do livro:

“No caminho para a universidade o som do hip-hop tomou conta do ambiente.
— Ah, eu adoro essa música. Vamos dançar! — Cassie agarra a mão de Melissa e arrasta a
amiga para mais perto do som.
— Você sempre quer dançar — disse Melissa, aborrecida.
— É que eu danço bem. — Comecei a remexer meus quadris no caminho de acesso para a
sede do centro acadêmico que estava lotado de gente.
— Ah, não. Pare, por favor.
Ri e, então, reduzi o ritmo do rebolado quando percebi a quantidade de olhares na minha direção. Odiava ser observada daquele jeito. Eu sei, eu sei. Sou uma mal- dita hipócrita.”
Examinei a multidão e me detive de repente num par de olhos deliciosos, cor de chocolate.
O fato de que os olhos pertenciam a um dos rostos mais belos que já vira era meramente um bônus. O rapaz passou os dedos pelos cabelos negros até que eles alcançassem o rosto bronzeado. Sorriu de forma preguiçosa para mim, e eu senti um arrepio percorrer pelo meu corpo.
— Você não está olhando para ele, está? — Melissa parou na minha frente, quebrando o contato visual.
— Você não sabe quem ele é, Cassie?
— Não faço a menor ideia. Do contrário, estaríamos namorando.
— Jack Carter não namora. Ele transa com as garotas e com todas as amigas delas.
— Então, esse é o famoso Jack Carter? — perguntei. O nome dele era comentado em toda a faculdade.
Então, Jack começou a vir na minha direção. A bermuda cargo preta e a camiseta cinza justa combinavam bem com seu porte físico de um metro e oitenta de altura. Os músculos dos braços marcavam o tecido, acentuando os ombros bem definidos. Ele inclinou a cabeça para baixo e estreitou os olhos como se eu fosse alguém muito pequena e indefesa, que não tinha a menor ideia de que estava prestes a ser devorada viva pelo animal mais belo e perigoso da selva. Quase me senti violentada. Suja. Com a necessidade de tomar um banho para limpar meu corpo daquele olhar. Ele se apresentou e eu olhei para o lado. — Sei quem você é. — Fingi desinteresse. Ele era belo e encantador. E parecia um machista da pior espécie. Meu Deus, o que há de errado comigo?”

Um pouco sobre a autora:

J. STERLING nasceu no sul da Califórnia e cresceu assistindo a jogos de beisebol do Los Angeles 
Dodgers e jogando softbol. Ela se formou em rádio, tevê e cinema, e trabalhou na indústria do entretenimento grande parte de sua vida. O jogo perfeito é o primeiro livro da trilogia The Game Series.


Ansiosos???

O livro chega nas livrarias no dia 25 deste mês.


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13/06/2014

Os Vizinhos



—Ó João, se te fosse dado pedir ao Senhor alguma coisa, que lhe pedias tu?
—Eu? Bem pouco. Pedia-lhe saúde para mim e para os meus, mais a sua benção sobre as minhas terras que, duns tempos a esta parte, andam bem precisadas do favor divino.
— Só isso? Pois então se Deus aparecesse e quisesse amercear-te, só lhe pedias essa miséria?
—Para mim seria a melhor fortuna. E tu?
—Eu? Ah! eu... Havia de pedir tanto ouro, tanto! que eu e a minha gente, dia e noite contando-o, não chegássemos, ao fim da vida, a saber a soma exata da nossa fortuna.
—E para que tanto dinheiro?
—Ora! para ser o homem mais rico do mundo.
—Mas não o mais feliz.
—Como não? Que entendes tu por felicidade?
—Eu entendo que a felicidade é a saúde do corpo e a paz do espírito.
—Pois cá para mim é o dinheiro. Quem tem dinheiro tem tudo.
—Nem tudo.
Entraram numa trilha que cortava o canavial viçoso.
Rompia clara e fresca a manhã. Passarinhos cantavam nos ramos e as águas brandas que discorriam punham no ar agradável murmúrio. O sino da igreja rústica, onde os dois homens haviam ouvido a missa do Natal, bimbalhava festivamente.
E eles lá iam com os seus altos cajados, por entre as ervas discutindo a felicidade.
Os sítios eram contíguos: limitava-os uma cerca de espinhos. Junto à primeira porteira, o que ambicionava a fortuna incontável, despediu-se do companheiro.
— Então adeus, João. E olha que o Senhor não ficaria mais pobre se quisesse realizar o teu desejo. Adeus!
E o outro respondeu caminhando:
— E eu ficaria contente e renderia comovidas graças à sua misericórdia.
Entrou o ambicioso no terreiro do seu sítio e, ainda não avistara a casa, quando lhe pareceu ouvir alegre som metálico como de peças de ouro que rolassem tinindo. Estugou os passos ansiosos com o coração aos saltos, e, ao chegar à varanda, viu, sobre a mesa, um grande saco transbordando de ouro. E eram dobrões novos, reluzentes como se houvessem saído, naquela mesma manhã, da cunhagem. A mulher e os dois filhos empilhavam as moedas, tanto, porém, que viram o homem aparecer, correram a anunciar-lhe a boa nova.
Entrara ali um formoso menino e, sem dizer palavra, deixara sobre a mesa aquele saco de ouro. Como lidassem com ele para que dissesse quem era, donde vinha, apenas respondera: Que era portador dum presente de Deus. E, com tais palavras, desaparecera.
Lembrou-se, então, o homem da conversa que tivera com o vizinho e sorriu pensando: “Se Deus assim tão de pronto atendeu ao meu pedido avultado, por certo não deixou o dele sem resposta.” Pobre João! Como se ralará de inveja quando souber da minha riqueza.
Logo, porém, sem agradecer ao Senhor o generoso presente, disse para a mulher e para os filhos:
— Bem. Não percamos tempo. Há aí muito que contar. Vamos ver quantos dobrões há no saco, que nem por isso é tão grande como podia ser. Em menos de meia hora poderemos ter a tarefa acabada.
E os quatro, em volta da mesa, puseram-se a contar as moedas. À medida que perfaziam um conto separavam as pilhas e assim cobriram a mesa e foram depois arrumando nos aparadores e nos bancos.
Veio a noite, e o saco sempre a despejar moedas.
Uma luz amarela aclarou o interior da casa. As quatro criaturas alucinadas iam e vinham acastelando dobrões. Os móveis já estavam cobertos, passaram a juntá-los no chão. E não sentiam os dias nem as noites: contavam fascinadas pelo ouro.
A casa encheu-se. Arrastaram o saco para o paiol e o paiol ficou a deitar fora. Passaram ao moinho e abarrotaram-no; recolheram às tulhas, à abegoaria, a todos os cantos onde pudessem entesourar. Por fim, como o saco não se esvaziava, foram empilhando mesmo no terreiro e ao longo dos caminhos onde as plantas haviam mirrado.
         João, o modesto, logo ao passar a porteira do seu sítio, ficou deslumbrado vendo os seus milhos ostentando pendões viçosos, o seu feijoal alastrando, a sua vinha carregada, a fonte manando copiosamente, todo o seu gado nédio e luzidio, pastando afogado em ervas que haviam nascido em terreno sáfaro que sempre respondera com ingratidão a todo o trato e ao mais penoso granjeio.
E ainda não saíra do pasmo quando viu aparecer à porta do casebre, que uma roseira recente floria e perfumava, a mulher, que ele deixara no leito, tolhida e ardendo em febre, rindo, robusta e corada, como no tempo em que a vira, ainda donzela e a pedira por noiva.
Compreendendo imediatamente que, em tudo aquilo, andara a mão benéfica de Deus, antes de acudir à mulher, que o chamava, ajoelhou-se e agradeceu o milagre. Erguendo-se, então, encaminhou-se à casa e a mulher, atirando-se-lhe nos braços, disse:
— Apareceu aqui um formoso menino e, tomando do regador, que ali estava, saiu a regar as terras e, onde caía a água, fosse entre pedras, logo rebentava a planta. O gado, depois de beber, de entrezilhado que estava, ficou assim como o vês; os milhos murchos cresceram e apendoaram; o feijoal alastrou, o arroz veio logo a flux, as árvores cobriram-se de flores, a fonte entrou a manar e, para maior espanto meu, quando abri os paióis, vi que estavam atulhados.
—E que te disse o menino?
—Sorriu e desapareceu; e foi o seu sorriso que me pôs como estou. Logo senti-me outra: pude andar e com tanta facilidade e ligeireza que corri todo o sítio e vi que todo ele está ricamente coberto de flores e de frutos.
—Foi Jesus que aqui esteve, disse o bom homem.
—Nem podia ser outro, confirmou a mulher.
E João, pensando no vizinho, disse, sem sombra de inveja:
— Se foi Deus que nos fez assim felizes, também a sua graça deve ter chegado ao nosso vizinho.
— Como sabes? perguntou a mulher.
E João narrou a conversa que haviam entretido, depois da missa, atravessando o canavial que se dourava ao sol.
—Deve estar, a esta hora, a contar o seu ouro.
—Não é mais feliz do que nós, disse a mulher.
—Não é, decerto, afirmou João, vendo chegar, a zumbir, um louro enxame de abelhas procurando cortiço onde aboletar-se.
 Correram dias, correram meses. Todos os sábados João descia ao mercado e já havia comprado uma carreta para transportar os produtos da sua abençoada herdade, que prosperava a mais e mais, quando, uma vez, perguntaram-lhe pelo vizinho:
“Que era feito de tal homem que não aparecia?”
João sorriu lembrando-se da manhã do Natal.
“Para que havia ele de incomodar-se em lidas penosas se tinha, com certeza, mais ouro do que todos os reis da terra?” Quis, entretanto, convencer-se e, esvaziada a última ceira, subiu para a carreta resolvido a passar nas terras do vizinho.
Logo que avistou a porteira travou-se-lhe o coração pressago. Um matagal intonso cobria os caminhos; os talhões, outrora viçosos, desapareciam afogados em urtigas. Nem uma ovelha balia e do casebre não subia o fumo denunciador da vida. Estava tudo entristecido e calado como um cemitério.
João foi guiando lentamente o animal e o carro rangia por entre as ervas altas que haviam reconquistado o terreno, dantes tão rico em flor e em fruto.
Diante da porteira desceu e, depois de muito haver batido, resolveu penetrar com um pressentimento de desgraça. E foi.
O terreiro era um mato bravio. A parietária trepava nos muros tendidos do casebre. Aves sinistras abalaram vendo aproximar-se o homem curioso.
João, parando no terreiro, bradou para o casebre escancarado. Não teve resposta. Resolveu caminhar e foi.
Quando chegou ao limiar da casa viu pilhas e pilhas de moedas de ouro; tocando, porém, em uma delas estremeceu ao vê-la desfazer-se em pó. Prosseguiu.
Por toda a parte eram montões de ouro, mas como as tábuas do soalho oscilassem, a fortuna logo rolava convertida em poeira. E João seguiu até a sala de jantar.
Em volta da mesa estavam quatro esqueletos curvados sobre montes de ouro. João estacou aterrado e olhava, rezando, quando viu um morcego esvoaçar, doudejante em torno de um dos esqueletos e esconder-se-lhe no crânio como na própria lura.
Não se conteve então: recuando assombrado afastou-se da casa maldita e, mal chegou à porteira, ouviu grande estrondo como um desmoronamento. O casebre aluíra e uma poeirada negra escurecia os ares.
João persignou-se e, subindo para a carreta, tocou o animal fugindo àquele sítio malsinado, lembrando-se do ambicioso desejo do vizinho, que Deus satisfizera: “Tanto ouro, tanto! que ele e a sua gente, dia e noite, contando-o, não chegassem, ao fim da vida, a saber a soma exata da fortuna.” E ali tinham eles o ouro: poeira, somente poeira.
Os desgraçados haviam sucumbido à fadiga e à fome contando, sem pausa, as moedas que inexoravelmente transbordavam do saco inesgotável.
Quando avistou, por entre as árvores, a sua casinha alegre, toda em verdura, e viu o seu gado robusto e a sua cultura exuberante, de novo rendeu graças ao Senhor que ouvira o seu voto e lhe recompensara largamente o desejo modesto, dando-lhe a saúde, que é a riqueza do corpo, e a tranquilidade, que é a fortuna do espírito.
E os seus haveres eram mais que suficientes, porque não só lhe davam para a abastança como ainda deixavam sobras que eram repartidas em esmolas.
E assim, acudindo ao pobre, demonstrava ao Senhor a sua gratidão. E o outro, no próprio prêmio tivera o justo castigo da sua desmarcada ambição.
E foi assim que Jesus infante satisfez os desejos dos dois vizinhos.


Coelho Neto

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