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23/09/2014

RESENHA - Eu Sou a Lenda (Richard Matheson)

         Aviso: Esta resenha marca a entrada do mais novo membro do nosso time. Queremos desejar as nossas boas vindas mais calorosas ao Colunista e Resenhista Felipe Drummond.

Ficha técnica:
Referência bibliográfica: MATHESON, Richard. Eu Sou a Lenda. 1ª edição. São Paulo, Editora Novo Século, 2007. 154 páginas.
Gênero: Terror
Temas: Apocalipse, vampiros.
Categoria: Literatura Estrangeira; Literatura Norte-Americana.
Ano de lançamento: 1954






“Estendeu-se na cama e tomou profundas inspirações na escuridão, esperando pelo sono. Mas o silêncio realmente não ajudou. Ainda podia vê-los lá fora, homens de rosto branco caminhando cautelosamente em torno da casa, procurando incessantemente uma maneira de entrar. Alguns, provavelmente, agachados como cães, olhos brilhando sobre a casa, dentes rangendo vagarosamente; para trás e para a frente, para trás e para frente.
E as mulheres...
Tinha de começar a pensar nelas outra vez?"

*Eu sou a lenda (pág. 20/21).


Imagine-se num mundo bem diferente do habitual. Pense que você está na pele de um homem cada vez mais psicologicamente abalado, perdido e isolado, totalmente preso, apesar da extrema liberdade, dentro de um universo pós-apocalíptico com características infernais e terrivelmente mortais. Dito isto, você é Robert Neville, aparentemente um homem qualquer, não fosse pelo fato de ser talvez o único ser humano vivo que restou no planeta Terra. E obviamente não seria tão simples. Como se não bastasse ser o último dos homens ainda saudáveis e vivos, há novas criaturas, ou infectados humanos, seres vampirizados e altamente mortais com os quais Robert precisa lidar a todo o momento para não ser caçado, especialmente durante a noite. O mundo foi assolado pelo vampirismo, uma praga que dominou o planeta, e Robert vê-se como o único ser humano imune. O motivo disto? Descubra com Robert Neville durante a leitura.
                A rotina do protagonista é clara. Durante o dia, Robert é o predador e precisa se preparar para a noite, horário em que ele vira a presa e deve tentar permanecer vivo. A população do planeta, vampirizada, ou infectada com a misteriosa praga, dorme no período diurno e o protagonista, por conta dessa sorte, tem hora certa de voltar, ainda seguro, à sua casa a fim de se proteger das terríveis criaturas que querem capturá-lo. Por algum motivo de sorte (ou azar?), Robert Neville aparentemente foi o único ser humano do mundo não contaminado pela praga. Dentro dessa batalha solitária, aproveita todo o horário de claridade de seus dias para fortificar a sua casa contra os vampiros e caçar alguns enquanto dormem, além de, nos dias em que surge a necessidade, sair à rua para arranjar suprimentos e outros ítens úteis à sua sobrevivência. Tudo isso deve ser feito o mais rápido possível. Os monstros vampíricos acordam em determinado horário da noite e saem de seus esconderijos, indo ao encontro de Robert, que precisa aguentar as investidas e tentativas das criaturas de invadirem sua propriedade ou de fazê-lo sair. Durante o período noturno, enquanto ouve os seres transformados lá fora, ele normalmente decide espiá-los, ou afogar-se nas bebidas muitas vezes acima de seu limite, ou até pensar em modos de se matar e acabar logo com isso, embora não exista a coragem necessária para tal. E assim Robert se afunda dentro de seu próprio ser. Mesmo mantendo-se vivo, não parece haver vitória alguma. Está sempre faltando algo: pessoas, coisas, afeto, alegria, voz. Não há nada. Isso o mata cada vez que permanece mais vivo e é com essa situação que o ser humano da história precisa lidar. A corrosão cada vez mais forte da alma externada pela solidão.
 A obra possui três adaptações cinematográficas, sendo a mais recente delas interpretada por Will Smith como o protagonista em uma história nada semelhante ao livro, exceto pelo título e ideia central de apocalipse global com um único sobrevivente imune. Os vampiros do filme, diferente do que é demonstrado no livro, remetem automaticamente a mente do leitor à idéia mais normal sobre os zumbis clássicos e famosos de aparência grotesca do cinema, que caçam carne humana ou cérebro dos sobreviventes. O filme possui ainda diversos elementos diferenciados na sua história, podendo-se dizer com segurança que o livro é quase totalmente diferente em seu início, meio e principalmente fim (sendo este bem surpreendente). No âmbito da obra literária é notável o surgimento de vampiros mais fiéis à ideia mais original de suas existências, como nos momentos, por exemplo, em que aparecem o medo das criaturas em relação a cruz e alho, o que não existe no filme. Há, inclusive, momentos em que se percebe resquícios de humanidade nos próprios vampiros do livro. Não possuindo uma aparência grotesca, é notável, dentre muitas tentativas das criaturas em fazer Robert Neville sair de casa à noite, vampiras tirarem suas roupas na sua frente chamando-o para fora e seu vizinho gritar pelo seu nome. Quem viu o filme vai se sentir confuso e pode vir a resistir a esse tipo de ideia presente na obra.
 Esta obra literária consegue ser simples ao mesmo tempo em que se torna algo positivamente complexa. Aparentemente fácil, a ideia de narrar a história de um homem solitário que tenta sobreviver num mundo hostil sem nenhum tipo de ajuda de outrem, mostra enorme magnificência ao explorar todo o drama psicológico do protagonista deste livro de praticamente um único personagem. A luta contra o próprio eu é ainda mais viva do que a guerra de um homem só contra os vampiros. Vemos o quanto o ser humano pode ser dependente da civilização ao explicitar as consequências de um total e eterno isolamento social. No desfecho da história percebemos uma possibilidade para reflexão acerca do modo humano de enxergar as coisas, numa espécie de crítica social. A trama, em geral, se foca nos detalhes acerca de todo o drama vivido por Robert, explorando as várias dificuldades que envolvem o fator sobrevivência, como a busca por suprimentos, bem como necessidades fraternais e até carnais, além de uma dramatização referente à análise psicológica perturbadora do personagem como consequência a essa situação calamitosa. Durante a leitura você entrará na mente do último homem do planeta, precisando lutar para sobreviver aos vampiros que querem lhe caçar, além, claro, de tomar medidas investigativas capazes de explorar e descobrir a razão de tudo ter ido para os ares de repente no planeta. Robert é um curioso e necessita descobrir o que realmente aconteceu, obtendo descobertas interessantes e de certo modo até importantes em relação aos vampiros. Definitivamente cabe a Robert Neville, além de sobreviver, investigar e encontrar uma solução, uma cura para estes vampiros, enquanto se esforça para não ser morto.
 O livro possui uma linguagem acessível ao grande público sem pecar em qualidade literária, sendo uma narrativa realizada em 3ª pessoa que flui facilmente em concordância com a imaginação do leitor sobre o dia a dia de Robert. Alguns trechos se desenrolam de forma arrastada com muitas páginas descrevendo um intervalo de tempo pequeno e em outros momentos a história irá pular meses de repente. Há muita descrição de suas rotinas aliados às sensações presentes de sua psique meio deturpada. O livro é basicamente uma narrativa biográfica de um sobrevivente aparentemente comum, mas bastante relevante de alguma forma nesse novo mundo. Afinal, ele é a lenda.
 O homem por trás desta obra é Richard Matheson (1926-2013), famoso escritor norte americano formado em jornalismo e falecido aos 87 anos em junho de 2013. Deixou como herança para o mundo quatro filhos dos quais três são autores de ficção científica e roteiristas. Da metade do século 20 para o início do século 21, Richard Matheson escreveu incontáveis livros e contos, dos quais uma boa parte possui uma considerável fama no meio literário, tendo, em determinados casos, inspirado obras do cinema, como a famosa "A Noite dos Mortos Vivos" de George Romero.
 Caso você seja um admirador de obras de terror pós-apocalíptico e ficção com uma boa dose de drama e terror psicológico, além, claro, de ter apreço por vampiros, este livro foi feito para você ler imediatamente.



Bibliografia de Richard Matheson (ordem cronológica):

Livros:
  • Someone is Bleeding (1953)
  • Fury on Sunday (1953)
  • Eu Sou a Lenda (1954)
  • O incrível homem que encolheu (1956)
  • A Stir of Echoes (1958)
  • Ride the Nightmare (1959)
  • The Beardless Warriors (1960)
  • A Casa Infernal (1971)
  • The Night Stalker (1972)
  • The Night Strangler (1973)
  • Em Algum Lugar no Passado (1975)
  • Amor Além da Vida (1978)
  • Earthbound (1989)
  • Journal of the Gun Years (1991)
  • The Gunfight (1993)
  • 7 Steps to Midnight (1993)
  • Shadow on the Sun (1994)
  • Now You See It... (1995)
  • The Memoirs of Wild Bill Hickock (1996)
  • The Path: A New Look at Reality (1999)
  • Passion Play (2000)
  • Hunger and Thirst (2000)
  • Camp Pleasant (2001)
  • Abu and the 7 Marvels (2002)
  • Hunted Past Reason (2002)
  • Come Fygures, Come Shadowes (2003)
  • Woman (2006)
  • Other Kingdoms (2010)
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