Tecnologia do Blogger.

02/09/2014

RESENHA - O Vale dos Mortos (Rodrigo de Oliveira)

         Aviso: Está é uma resenha feita de fã para fã. Explico. A obra resenhada trata de um tema pelo qual sou admirador confesso, o apocalipse zumbi. Desse modo a análise do livro se fundamentou em todo o material que conheço a respeito do tema, resultando em uma resenha mais critica e recheada de referências a outras obras. Uma experiência pessoal e um presente para os admiradores do gênero. O resultado é um texto que os apreciadores dos mortos que andam vão gostar de ler. E os leitores que gostam de um bom livro vão encontrar todos os elementos necessários para avaliar se vale ou não a pena se deixar envolver pela história de "O Vale dos Mortos". Boa leitura!

 Ficha técnica:
Referência bibliográfica: DE OLIVEIRA, Rodrigo. O Vale dos Mortos. 2ª edição. São Paulo, Faro Editorial, 2014. 298 páginas.
Gênero: Terror Fantástico 
Temas: Fim do mundo, Zumbis.
Categoria: Literatura Nacional
Ano de lançamento: 2014
Série: O Vale dos Mortos (Livro 1); Batalha dos Mortos (Livro 2);














“Tudo aconteceu em poucos segundos. Quando Ivan fez menção de fugir, ouviu um carro arrancando, cantando os pneus, e o Elantra atingiu o homem com um estrondo. O sujeito caiu no chão com um baque seco, todo desengonçado. Ivan piscou, completamente sem reação.
 Estela escancarou a porta do motorista e olhou para o marido, furiosa.
 - Você vai entrar no carro ou continuará tentando fazer amizade com os zumbis? – A paciência de Estela estava por um fio.
 - Zumbis? – perguntou Ivan, estranhando a palavra, familiar nos filmes de terror, mas completamente deslocada na vida real.
 - Que merda você acha que eles são?! Entra no carro, porra! – gritou Estela, pulando de volta para o banco do passageiro.”
*O Vale dos Mortos (pág. 47).


Final de 2017.
Cientistas descobriram a existência de um planeta colossal em rota de colisão com a Terra. O monstro rochoso era vinte vezes maior que o nosso diminuto planeta e um impacto significaria o fim do mundo. Os governantes de todo o planeta abriram o jogo para a humanidade, anunciando o possível fim e o pânico se instaurou por todo o globo, pois ao ser descoberto, ele já estava próximo demais da Terra para qualquer medida emergencial. Era uma questão de meses até que ele estivesse em cima de nós.
Absinto foi o nome que deram para o monstro. O flagelo do fim do mundo.
Porém, após meses de estudos, o mundo respirou aliviado quando descobriu-se que o gigante não estava em rota de colisão com a Terra, mas passaria muito, mas muito perto, em medidas cósmicas, passaria “raspando”. Todos respiraram aliviados e uma grande festa sem precedentes na história da humanidade foi celebrada. Agora Absinto passou de preocupação a admiração, pois ele poderia ser visto a olho nu, devido à pequena distância entre os dois e o seu tamanho.
O grande dia finalmente chegou e o mundo parou para ver a passagem de Absinto.
Então... aconteceu. 2/3 de todas as pessoas do planeta caíram desmaiadas, causando acidentes e mortes em todo o globo.
E essa nem foi a pior parte.
Os que caíram se levantaram e começaram a atacar seus semelhantes sem distinção.
Começava aí o verdadeiro fim do mundo.
O Vale dos Mortos, obra do autor Rodrigo de Oliveira, nos leva para um mundo totalmente devastado pelo Apocalipse Zumbi. Diferente de muitas obras (onde nos é mostrado o mundo já dominado ou para ser devastado), após a introdução, o autor começa sua narrativa explorando a vida dos personagens principais pouco antes do evento fatídico que culminaria no fim do domínio da raça humana na Terra. Surge daí o relato da vida comum de um casal e seus dois filhos. Eles viviam em São José dos Campos e os leitores vão acompanhar a saga de uma família que luta pela sobrevivência em meio à ameaça de extinção completa da raça humana.
A parte em que dizem “O mais original desde The Walking Dead” está logo no início. Quando os cientistas da NASA descobrem a existência de Absinto e asseguram que ele não representaria risco à humanidade, nada poderia tê-los preparado para o que significaria a passagem do planeta gigante. Mesmo sem explicar como, o autor deixa claro na obra quem foi o responsável pelo aparecimento dos mortos-vivos e creio que nunca ouvi falar (se alguém aí já, me informe nos comentários) de uma abordagem parecida em livros de zumbi. Temos os vírus criados em laboratório, os rituais vudus, praga divina e outras formas bizarras de como um zumbi “nasce”, mas um planeta? Parabéns ao autor, genial.
No entanto, podemos notar que o autor se utiliza de vários elementos já consagrados por outros autores do gênero. Natural, até porque é complicado imaginar novas formas para contar uma mesma realidade. Isso ocorre em todos os tipos de história. Acontece muito de vermos autores usando o mesmo cenário, mas contando os fatos sob óticas e perspectivas diferentes e até inusitadas, como “Morgan, o único”, por exemplo, onde o personagem principal da história é um zumbi. Em “O Vale dos Mortos”, Ivan sugere a sua esposa que eles se refugiem em um Shopping (ideia que qualquer sobrevivente vai ter uma hora ou outra). Os fãs do gênero rapidamente podem se lembrar do filme“Madrugada dos Mortos”. Claro que existem outros que abordam a mesma ideia de correr até um shopping, mas vamos lá. Quando eles entram, encontram sobreviventes lá dentro que, eles logo descobrem, faziam a manutenção do prédio. Familiar? Pouco tempo depois aparecem mais sobreviventes dentro de um caminhão. E agora? Depois eles encontram outros sobreviventes nas vizinhanças e usam placas para se comunicarem. Agora foi, né? Só faltou o cachorro e a garota tapada. Os fãs em um primeiro momento podem ficar desconfiados com toda essa semelhança (como eu fiquei), mas depois de ler todo o livro, o autor escreve uma nota, dizendo que “O Vale dos Mortos” surgiu depois de um pesadelo, logo após assistir ao filme “Madrugada dos Mortos”, de George Romero. Então podemos considerar que o autor pegou emprestado elementos do grande mestre Romero como uma forma de fazer uma homenagem. Afinal, não fosse por George, este livro talvez não existisse. Posso dizer que os elementos foram muito bem inseridos dentro da realidade brasileira (no sentido de ambientação). O que estou expondo é que o autor utilizou elementos já usados por mestres do gênero. Tenho plena convicção de que ele terá nos próximos volumes sua própria fórmula e daqui a mais tantos anos alguém vai estar “pegando emprestado” esses elementos.
O que chamou muita atenção, é que o autor fez uma grande pesquisa para criar sua obra. Apesar de obviamente se tratar de uma ficção, muitos fatos e locais são baseados na realidade. As teorias sobre Absinto, por exemplo, são reais e foram registrados no livro do Apocalipse. As passagens históricas, São José dos Campos, os presidentes dos países por onde a obra passa. Claro que, com algumas mudanças necessárias, até porque, é difícil imaginar quem vai ser o Presidente do Brasil ou Estados Unidos daqui a quatro anos (época em que se passa a obra). O autor está de parabéns pelo trabalho de pesquisa, ficou muito bom.
Em quase todas as histórias sobre o apocalipse que vemos por aí, muitas vezes podemos ver alguém dizer: “Onde está o governo? As forças armadas? Os líderes mundiais?” Pois bem, o autor é um dos poucos que responde essa pergunta em uma narrativa, e responde muito bem. O governo foi massacrado. As lideranças caíram. As forças armadas foram derrotadas pelos mortos que andam. Os que escaparam são como todos os outros, apenas sobreviventes. Uma hora ou outra todos ficam sabendo disso. Mas, como eles lutaram? Como tentaram resolver a situação? Grande parte das histórias retrata um personagem comum (no sentindo de pessoal civil sem contato com o governo, com o exército, empresas farmacêuticas, etc.) tentando sobreviver. O “como o governo foi derrotado” é um mero detalhe sem muita importância. Então, imagine o presidente dos Estados Unidos correndo desesperado para o seu bunker, enquanto seus seguranças metem bala em tudo que se mexe. Ou o presidente do Brasil fazendo o mesmo. Em passagens pelos Estados Unidos, China e França, o autor demonstra como a praga dos zumbis é mortal para qualquer pessoa, independente da base de poder em que ela se encontra. Do cidadão comum ao cargo máximo de chefia de um País. Confesso que fiquei empolgado quando li essa parte, pois não é toda história que foca no que o governo fez ou deixou de fazer (um bom exemplo é o anime High School of the Dead, que mostra o avião particular do Presidente do EUA sendo tomado pelos zumbis), apenas limitam-se a comentar que como todos os outros, eles caíram. Isso me lembra um mapa extra do jogo Call of Duty: Black Ops, onde os presidentes Kennedy e Nixon, além de Fidel Castro e Robert McNamara enfrentam hordas de zumbis para sobreviver.

O Governo também teve sua chance contra os Zumbis
O autor trabalha muito com a ideia do “Jardim do Éden”, refúgio ideal para sobreviver ao Apocalipse. Muito se discute isso. O livro “Guia de Sobrevivência a Zumbis” fala muito disso. Será que é uma boa se refugiar em um Shopping? Delegacia? Hospital? Igreja? Ilha paradisíaca? QG do exército? Quase todos os sobreviventes lutam com essa ideia na cabeça de encontrar um lugar para recomeçar. Para tentar voltar ao que era antes. Ter uma vida e não simplesmente sobreviver. O que acontece na maioria das vezes é que o problema não é o local escolhido, são as pessoas que estão dentro dele. É no fim, na iminência da morte que o ser humano mostra sua verdadeira face. E é por conta de atitudes mesquinhas e individualistas que a maioria dos refúgios ditos “seguros” caem. Ivan soube disso da pior maneira possível. Depois de descobrir seu próprio Éden e garantir que nenhum infectado penetre no lugar, ele acabou baixando a guarda, pensando que o inimigo estava do lado de fora. O pior aconteceu e o resultado disso mudou drasticamente a forma de pensar e a vida dos que lá viviam.
Em minha opinião, faltou na obra um pouco mais de abordagem psicológica. Ela existe e foi crucial em certo momento da história, mas acabou sendo um fato isolado dentro da trama. Um evento como esse deixa as pessoas perturbadas, insanas. Ver um ente querido morrer e voltar para tentar te matar é algo que pode fritar os miolos de uma pessoa. Isso foi pouco explorado na trama como um todo, talvez porque os sobreviventes mostrados viviam mais enclausurados em áreas seguras e os que saiam já eram mais “treinados” para o horror que é o mundo dos mortos, o que não foi o caso do Advogado, por exemplo, personagem principal do livro Apocalipse Z. Espero ver nas próximas obras um maior enfoque nesse tipo de abordagem.
A escolha de um líder é essencial quando se tem um grupo que tenta sobreviver ao apocalipse. Sem um grupo coeso, com uma liderança forte, as chances de sobrevivência, que já são pequenas, se aproximam perigosamente de nulas. Ivan, assim como Rick Grimes (The Walking Dead) tornou-se líder naturalmente, não só pelo carisma, mas por chamar todas as responsabilidades e tomar decisões que só cabem a uma liderança forte fazer. Além do mais, sua liderança é reforçada com a estratégia de delegar funções para que seus comandados se sintam importantes dentro do meio em que vivem, fazendo com que suas decisões raramente sejam questionadas. Ivan conseguiu se firmar como comandante de centenas de pessoas, até mesmo soldados se renderam ao seu carisma de líder. E ao seu lado está Estela, sua esposa e conselheira fiel. Aquele ditado “por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher” se aplica bem a ela. Muitas das decisões de Ivan só seguiam para seus subordinados após ele ouvir os conselhos de sua esposa, e ela própria em determinadas situações se encarregava de ser a liderança de que o grupo precisava. Assim como Rick tinha o Shane para contestar suas decisões, Zac aparece para cumprir o mesmo papel. Apesar de não ter o instinto homicida de Shane, Zac dá muito trabalho para o líder dos sobreviventes antes de finalmente reconhecer que Ivan era um líder muito melhor que ele.
Seguindo uma abordagem mais “mete bala primeiro, pergunte depois”, “O Vale dos mortos” está bem mais próximo de histórias como Guerra Mundial Z (o Filme), Resident Evil (os mais recentes) e Left4Dead e suas batalhas armadas do que a sobrevivência em seu lado mais obscuro e amedrontador mostrado em obras como o primeiro volume claustrofóbico de Apocalipse Z e os primeiros jogos de Resident Evil. A matança rola solta na obra quando Ivan e seus comandados conseguem botar a mão em armas. Muitos fãs do gênero podem se identificar com essa parte em específico, do desejo de ter algo em mãos para trucidar os mortos que andam. De modo que podemos pensar: “se fosse eu no lugar dele, sentava o dedo nessa p$#@&* até a munição acabar”. Afinal, quem não queria ser como Tallahassee de Zombieland naquele final épico no qual ele fica preso dentro de um cubículo, armado até os dentes, metendo bala em tudo que se mexe? Talvez os fãs mais antigos (e/ou aqueles que gostam de acompanhar o apocalipse psicológico) não apreciem muito, assim como não gostaram ao ver as mudanças que Resident Evil fez ao longo dos anos de Sobrevivência Horror para Ação Horror. Aquela coisa de economizar munição porque sabe-se lá Deus onde você vai encontrar mais? Usar faquinha ou qualquer outra arma branca porque você só tem duas balas no pente (uma para dizer “eu fiz cócegas no Nêmesis” e outra para dar um tiro na própria cabeça, pois o monstrengo não morre nem com um lança míssil). Você não vai encontrar muito disso na obra. Assim como em Resident Evil 4, Ivan e companhia começam tímidos com suas “pistolinhas” e barras de ferro, mas logo o Welcome (quem jogou vai entender essa) aparece e por alguns trocados (leia-se pessoas morrendo) e um pouco de sorte eles conseguem munição para detonar até um exército de mortos vivos. Esse é um “divisor de águas” nas histórias apocalípticas. Uns amam, outros, nem tanto. Eu particularmente gosto mais das situações de munição limitada, mas não me importo nem um pouco de estourar quantos miolos puder.

Tallahassee metendo bala em Zombieland
Senti falta de um enfoque maior nas crianças. Depois que Ivan e Estela conseguiram refúgio, eles foram quase que completamente ignorados na trama. Eram apenas mencionados vez ou outra, mas nada que os envolvesse em uma situação de risco. A trama teria um drama maior com a inserção de cenas de risco envolvendo diretamente as crianças, como as que Phillip e Bryan Black tiveram em The Walking Dead – A ascensão do governador para manter Penny em segurança ou as que Rick tem com Carl e Carol teve com Sophia e na sequência com as irmãs Lizzie e Mika e a pequena Judite. Estou torcendo para ver um enfoque maior das crianças no próximo livro. Seria interessante ver situações em que os menores teriam de se virar para resolver. Quem lembra do Carl e suas presepadas? Ou da Sophia correndo por sua vida? Ou da corajosa Clementine sobrevivendo sem seu guardião?

Clementine teve de encarar o mundo dos mortos sozinha
A obra é toda narrada em terceira pessoa. A fluidez da narrativa é boa, o autor não usa palavras complicadas nem termos difíceis de compreender, de modo que o leitor pode ler com maior agilidade. O foco da narrativa está em Ivan e nas pessoas ao seu redor, mas não é uma regra. Algumas passagens acontecem longe dos olhos da comunidade que ele protege. A construção dos personagens é gradativa, pouco se sabe do passado de muitos, mas as características físicas e psicológicas de alguns vão sendo reveladas ao longo da trama. A obra se passa em uma linha de tempo linear, mostrando os fatos à medida que o tempo vai passando. A revisão e a formatação estão ótimas, quase não vi erros e os que eu vi são bobos e quase imperceptíveis. A capa é maravilhosamente bem desenhada e detalhada com a cidade ao fundo, carros fumegando, e o zumbi se arrastando acima. A contra capa negra dá um tom mais sombrio ao livro. Cada capítulo é ilustrado com uma mancha de sangue. A Faro está de parabéns pelo trabalho de diagramação do livro. Um detalhe curioso: o livro tem uma folha mais grossa, dando a impressão que há mais páginas na obra do que realmente tem. Numa primeira olhada, qualquer um pode pensar que a obra tem mais de 400 páginas. Uma boa jogada de marketing da editora.
Rodrigo de Oliveira é Gestor de TI e um grande fã de ficção científica, dos clássicos do terror, em especial da obra do mestre George Romero. Casado, com dois filhos, nasceu em São Paulo e vive entre a capital e o Vale do Paraíba. Também é autor de “Elevador 16” e acaba de lançar o segundo volume da série “A Batalha dos Mortos”.
O Vale dos Mortos é uma obra que retrata um apocalipse zumbi de ação desenfreada, onde ao mesmo tempo em que mostra a violência sem censura do mundo dominado pelos mortos que andam, mostra o valor da raça humana diante o fim quase certo. De certo, o autor ainda tem muito a mostrar e o "Vale dos Mortos" foi uma amostra do que ainda está por vir.
Recomento fortemente essa obra para os fãs do gênero.
Sem a menor sombra de dúvidas, o autor Rodrigo de Oliveira é um dos melhores representante brasileiro do gênero.

E que venha a Batalha dos Mortos.


Bibliografia de Rodrigo de Oliveira (ordem cronológica):

Livros:
  • O Vale dos Mortos –Editora Baraúna (2013); Relançado pela Faro Editorial (2014).
  • Elevador 16 – Faro Editorial (2013)
  • A Batalha dos Mortos – Faro Editorial (2014)

Comentários
4 Comentários

4 comentários:

  1. Luciano, isso não vale, não.
    A pessoa já tá louca de vontade de ler o livro aí tu vai e escreve uma resenha dessa só pra desesperar mais o pobre leitor, pobre.

    Preciso de ler esse livro *__*

    Conversas de Alcova

    ResponderExcluir
  2. Essa é a ideia. Que bom que você gostou. Em breve eu vou te deixar ainda mais desesperada com a resenha de "Batalha dos Mortos" rsrs

    ResponderExcluir
  3. Amei este livro, prende a atenção do começo ao fim, sem falar que adoro a temática apocalipse. Espero em breve ler o segundo. Ótima resenha

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Jéssica. Esse livro é ótimo. Em breve sai a resenha do segundo volume. Beijos

      Excluir

Deixe o seu comentário!