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31/10/2014

Pai Contra Mãe


A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.
O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também, à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.
Há meio século, os escravos fugiam com frequência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raros, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.
Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha promessa: "gratificar-se-á generosamente", — ou "receberá uma boa gratificação". Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o açoitasse.
Ora, pegar escravos fugidos era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.
Cândido Neves, — em família, Candinho, — é a pessoa a quem se liga a história de uma fuga, cedeu à pobreza, quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse homem, não aguentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade; é o que ele chamava caiporismo. Começou por querer aprender tipografia, mas viu cedo que era preciso algum tempo para compor bem, e ainda assim talvez não ganhasse o bastante; foi o que ele disse a si mesmo. O comércio chamou-lhe a atenção, era carreira boa. Com algum esforço entrou de caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém, de atender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas estava na rua por sua vontade. Fiel de cartório, contínuo de uma repartição anexa ao Ministério do Império, carteiro e outros empregos foram deixados pouco depois de obtidos.
Quando veio a paixão da moça Clara, não tinha ele mais que dívidas, ainda que poucas, porque morava com um primo, entalhador de ofício. Depois de várias tentativas para obter emprego, resolveu adotar o ofício do primo, de que aliás já tomara algumas lições. Não lhe custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu mal. Não fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofás e relevos comuns para cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando casasse, e o casamento não se demorou muito.
Contava trinta anos. Clara vinte e dois. Ela era órfã, morava com uma tia, Mônica, e cosia com ela. Não cosia tanto que não namorasse o seu pouco, mas os namorados apenas queriam matar o tempo; não tinham outro empenho. Passavam às tardes, olhavam muito para ela, ela para eles, até que a noite a fazia recolher para a costura. O que ela notava é que nenhum deles lhe deixava saudades nem lhe acendia desejos. Talvez nem soubesse o nome de muitos. Queria casar, naturalmente. Era, como lhe dizia a tia, um pescar de caniço, a ver se o peixe pegava, mas o peixe passava de longe; algum que parasse, era só para andar à roda da isca, mirá-la, cheirá-la, deixá-la e ir a outras.
O amor traz sobrescritos. Quando a moça viu Cândido Neves, sentiu que era este o possível marido, o marido verdadeiro e único. O encontro deu-se em um baile; tal foi — para lembrar o primeiro ofício do namorado, — tal foi a página inicial daquele livro, que tinha de sair mal composto e pior brochado. O casamento fez-se onze meses depois, e foi a mais bela festa das relações dos noivos. Amigas de Clara, menos por amizade que por inveja, tentaram arredá-la do passo que ia dar. Não negavam a gentileza do noivo, nem o amor que lhe tinha, nem ainda algumas virtudes; diziam que era dado em demasia a patuscadas.
— Pois ainda bem, replicava a noiva; ao menos, não caso com defunto.
— Não, defunto não; mas é que...
Não diziam o que era. Tia Mônica, depois do casamento, na casa pobre onde eles se foram abrigar, falou-lhes uma vez nos filhos possíveis. Eles queriam um, um só, embora viesse agravar a necessidade.
— Vocês, se tiverem um filho, morrem de fome, disse a tia à sobrinha.
— Nossa Senhora nos dará de comer, acudiu Clara.
Tia Mônica devia ter-lhes feito a advertência, ou ameaça, quando ele lhe foi pedir a mão da moça; mas também ela era amiga de patuscadas, e o casamento seria uma festa, como foi.
A alegria era comum aos três. O casal ria a propósito de tudo. Os mesmos nomes eram objeto de trocados, Clara, Neves, Cândido; não davam que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esforço. Ela cosia agora mais, ele saía a empreitadas de uma coisa e outra; não tinha emprego certo. Nem por isso abriam mão do filho. O filho é que, não sabendo daquele desejo específico, deixava-se estar escondido na eternidade. Um dia. porém, deu sinal de si a criança; varão ou fêmea, era o fruto abençoado que viria trazer ao casal a suspirada ventura. Tia Mônica ficou desorientada, Cândido e Clara riram dos seus sustos.
— Deus nos há de ajudar, titia, insistia a futura mãe.
A notícia correu de vizinha a vizinha. Não houve mais que espreitar a aurora do dia grande. A esposa trabalhava agora com mais vontade, e assim era preciso, uma vez que, além das costuras pagas, tinha de ir fazendo com retalhos o enxoval da criança. À força de pensar nela, vivia já com ela, media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. A porção era escassa, os intervalos longos. Tia Mônica ajudava, é certo, ainda que de má vontade.
—Vocês verão a triste vida, suspirava ela.
— Mas as outras crianças não nascem também? perguntou Clara.
— Nascem, e acham sempre alguma coisa certa que comer, ainda que pouco...
— Certa como?
— Certa, um emprego, um ofício, uma ocupação, mas em que é que o pai dessa infeliz criatura que aí vem, gasta o tempo?
Cândido Neves, logo que soube daquela advertência, foi ter com a tia, não áspero, mas muito menos manso que de costume, e lhe perguntou se já algum dia deixara de comer.
— A senhora ainda não jejuou senão pela semana santa, e isso mesmo quando não quer jantar comigo. Nunca deixamos de ter o nosso bacalhau...
— Bem sei, mas somos três.
— Seremos quatro.
— Não é a mesma coisa.
— Que quer então que eu faça, além do que faço?
— Alguma coisa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o homem do armarinho, o tipógrafo que casou sábado, todos têm um emprego certo... Não fique zangado; não digo que você seja vadio, mas a ocupação que escolheu, é vaga. Você passa semanas sem vintém.
— Sim, mas lá vem uma noite que compensa tudo, até de sobra. Deus não me abandona, e preto fugido sabe que comigo não brinca; quase nenhum resiste, muitos entregam-se logo.
Tinha glória nisto, falava da esperança como de capital seguro. Daí a pouco ria, e fazia rir à tia, que era naturalmente alegre, e previa uma patuscada no batizado.
Cândido Neves perdera já o ofício de entalhador, como abrira mão de outros muitos, melhores ou piores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe um encanto novo. Não obrigava a estar longas horas sentado. Só exigia força, olho vivo, paciência, coragem e um pedaço de corda. Cândido Neves lia os anúncios, copiava-os, metia-os no bolso e saía às pesquisas. Tinha boa memória. Fixados os sinais e os costumes de um escravo fugido, gastava pouco tempo em achá-lo, segurá-lo, amarrá-lo e levá-lo. A força era muita, a agilidade também. Mais de uma vez, a uma esquina, conversando de coisas remotas, via passar um escravo como os outros, e descobria logo que ia fugido, quem era, o nome, o dono, a casa deste e a gratificação; interrompia a conversa e ia atrás do vicioso. Não o apanhava logo, espreitava lugar azado, e de um salto tinha a gratificação nas mãos. Nem sempre saía sem sangue, as unhas e os dentes do outro trabalhavam, mas geralmente ele os vencia sem o menor arranhão.
Um dia os lucros entraram a escassear. Os escravos fugidos não vinham já, como dantes, meter-se nas mãos de Cândido Neves. Havia mãos novas e hábeis. Como o negócio crescesse, mais de um desempregado pegou em si e numa corda, foi aos jornais, copiou anúncios e deitou-se à caçada. No próprio bairro havia mais de um competidor. Quer dizer que as dívidas de Cândido Neves começaram de subir, sem aqueles pagamentos prontos ou quase prontos dos primeiros tempos. A vida fez-se difícil e dura. Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelo aluguéis.
Clara não tinha sequer tempo de remendar a roupa ao marido, tanta era a necessidade de coser para fora. Tia Mônica ajudava a sobrinha, naturalmente. Quando ele chegava à tarde, via-se-lhe pela cara que não trazia vintém. Jantava e saía outra vez, à cata de algum fugido. Já lhe sucedia, ainda que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em escravo fiel que ia a serviço de seu senhor; tal era a cegueira da necessidade. Certa vez capturou um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu grande soma de murros que lhe deram os parentes do homem.
— É o que lhe faltava! exclamou a tia Mônica, ao vê-lo entrar, e depois de ouvir narrar o equívoco e suas consequências. Deixe-se disso, Candinho; procure outra vida, outro emprego.
Cândido quisera efetivamente fazer outra coisa, não pela razão do conselho, mas por simples gosto de trocar de ofício; seria um modo de mudar de pele ou de pessoa. O pior é que não achava à mão negócio que aprendesse depressa.
A natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado à mãe, antes de nascer. Chegou o oitavo mês, mês de angústias e necessidades, menos ainda que o nono, cuja narração dispenso também. Melhor é dizer somente os seus efeitos. Não podiam ser mais amargos.
— Não, tia Mônica! bradou Candinho, recusando um conselho que me custa escrever, quanto mais ao pai ouvi-lo. Isso nunca!
Foi na última semana do derradeiro mês que a tia Mônica deu ao casal o conselho de levar a criança que nascesse à Roda dos Enjeitados. Em verdade, não podia haver palavra mais dura de tolerar a dois jovens pais que espreitavam a criança, para beijá-la, guardá-la, vê-la rir, crescer, engordar, pular... Enjeitar quê? enjeitar como? Candinho arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de jantar. A mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quase a se desfazer inteiramente. Clara interveio.
— Titia não fala por mal, Candinho.
— Por mal? replicou tia Mônica. Por mal ou por bem, seja o que for, digo que é o melhor que vocês podem fazer. Vocês devem tudo; a carne e o feijão vão faltando. Se não aparecer algum dinheiro, como é que a família há de aumentar? E depois, há tempo; mais tarde, quando o senhor tiver a vida mais segura, os filhos que vierem serão recebidos com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será bem criado, sem lhe faltar nada. Pois então a Roda é alguma praia ou monturo? Lá não se mata ninguém, ninguém morre à toa, enquanto que aqui é certo morrer, se viver à míngua. Enfim...
Tia Mônica terminou a frase com um gesto de ombros, deu as costas e foi meter-se na alcova. Tinha já insinuado aquela solução, mas era a primeira vez que o fazia com tal franqueza e calor, — crueldade, se preferes. Clara estendeu a mão ao marido, como a amparar-lhe o ânimo; Cândido Neves fez uma careta, e chamou maluca à tia, em voz baixa. A ternura dos dois foi interrompida por alguém que batia à porta da rua.
— Quem é? perguntou o marido.
— Sou eu.
Era o dono da casa, credor de três meses de aluguel, que vinha em pessoa ameaçar o inquilino. Este quis que ele entrasse.
— Não é preciso...
— Faça favor.
O credor entrou e recusou sentar-se, deitou os olhos à mobília para ver se daria algo à penhora; achou que pouco. Vinha receber os aluguéis vencidos, não podia esperar mais; se dentro de cinco dias não fosse pago, pô-lo-ia na rua. Não havia trabalhado para regalo dos outros. Ao vê-lo, ninguém diria que era proprietário; mas a palavra supria o que faltava ao gesto, e o pobre Cândido Neves preferiu calar a retorquir. Fez uma inclinação de promessa e súplica ao mesmo tempo. O dono da casa não cedeu mais.
— Cinco dias ou rua! repetiu, metendo a mão no ferrolho da porta e saindo.
Candinho saiu por outro lado. Nesses lances não chegava nunca ao desespero, contava com algum empréstimo, não sabia como nem onde, mas contava. Demais, recorreu aos anúncios. Achou vários, alguns já velhos, mas em vão os buscava desde muito. Gastou algumas horas sem proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias, não achou recursos; lançou mão de empenhos, foi a pessoas amigas do proprietário, não alcançando mais que a ordem de mudança.
A situação era aguda. Não achavam casa, nem contavam com pessoa que lhes emprestasse alguma; era ir para a rua. Não contavam com a tia. Tia Mônica teve arte de alcançar aposento para os três em casa de uma senhora velha e rica, que lhe prometeu emprestar os quartos baixos da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um pátio. Teve ainda a arte maior de não dizer nada aos dois, para que Cândido Neves, no desespero da crise, começasse por enjeitar o filho e acabasse alcançando algum meio seguro e regular de obter dinheiro; emendar a vida, em suma. Ouvia as queixas de Clara, sem as repetir, é certo, mas sem as consolar. No dia em que fossem obrigados a deixar a casa, fá-los-ia espantar com a notícia do obséquio e iriam dormir melhor do que cuidassem.
Assim sucedeu. Postos fora da casa, passaram ao aposento de favor, e dois dias depois nasceu a criança. A alegria do pai foi enorme, e a tristeza também. Tia Mônica insistiu em dar a criança à Roda. "Se você não a quer levar, deixe isso comigo; eu vou à Rua dos Barbonos." Cândido Neves pediu que não, que esperasse, que ele mesmo a levaria. Notai que era um menino, e que ambos os pais desejavam justamente este sexo. Mal lhe deram algum leite; mas, como chovesse à noite, assentou o pai levá-lo à Roda na noite seguinte.
Naquela reviu todas as suas notas de escravos fugidos. As gratificações pela maior parte eram promessas; algumas traziam a soma escrita e escassa. Uma, porém, subia a cem mil-réis. Tratava-se de uma mulata; vinham indicações de gesto e de vestido. Cândido Neves andara a pesquisá-la sem melhor fortuna, e abrira mão do negócio; imaginou que algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a vista nova da quantia e a necessidade dela animaram Cândido Neves a fazer um grande esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela Rua e Largo da Carioca, Rua do Parto e da Ajuda, onde ela parecia andar, segundo o anúncio. Não a achou; apenas um farmacêutico da Rua da Ajuda se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga, três dias antes, à pessoa que tinha os sinais indicados. Cândido Neves parecia falar como dono da escrava, e agradeceu cortesmente a notícia. Não foi mais feliz com outros fugidos de gratificação incerta ou barata.
Voltou para a triste casa que lhe haviam emprestado. Tia Mônica arranjara de si mesma a dieta para a recente mãe, e tinha já o menino para ser levado à Roda. O pai, não obstante o acordo feito, mal pôde esconder a dor do espetáculo. Não quis comer o que tia Mônica lhe guardara; não tinha fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos de ficar com o filho; nenhum prestava. Não podia esquecer o próprio albergue em que vivia. Consultou a mulher, que se mostrou resignada. Tia Mônica pintara-lhe a criação do menino; seria maior a miséria, podendo suceder que o filho achasse a morte sem recurso. Cândido Neves foi obrigado a cumprir a promessa; pediu à mulher que desse ao filho o resto do leite que ele beberia da mãe. Assim se fez; o pequeno adormeceu, o pai pegou dele, e saiu na direção da Rua dos Barbonos.
Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com ele, é certo; não menos certo é que o agasalhava muito, que o beijava, que cobria o rosto para preservá-lo do sereno. Ao entrar na Rua da Guarda Velha, Cândido Neves começou a afrouxar o passo.
— Hei de entregá-lo o mais tarde que puder, murmurou ele.
Mas não sendo a rua infinita ou sequer longa, viria a acabá-la; foi então que lhe ocorreu entrar por um dos becos que ligavam aquela à Rua da Ajuda. Chegou ao fim do beco e, indo a dobrar à direita, na direção do Largo da Ajuda, viu do lado oposto um vulto de mulher; era a mulata fugida. Não dou aqui a comoção de Cândido Neves por não podê-lo fazer com a intensidade real. Um adjetivo basta; digamos enorme. Descendo a mulher, desceu ele também; a poucos passos estava a farmácia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou, achou o farmacêutico, pediu-lhe a fineza de guardar a criança por um instante; viria buscá-la sem falta.
—Mas...
Cândido Neves não lhe deu tempo de dizer nada; saiu rápido, atravessou a rua, até ao ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarma. No extremo da rua, quando ela ia a descer a de S. José, Cândido Neves aproximou-se dela. Era a mesma, era a mulata fujona.
— Arminda! bradou, conforme a nomeava o anúncio.
Arminda voltou-se sem cuidar malícia. Foi só quando ele, tendo tirado o pedaço de corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ela compreendeu e quis fugir. Era já impossível. Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu então que a soltasse pelo amor de Deus.
— Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço!
— Siga! repetiu Cândido Neves.
— Me solte!
— Não quero demoras; siga!
Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem passava ou estava à porta de uma loja, compreendia o que era e naturalmente não acudia. Arminda ia alegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com açoites, — coisa que, no estado em que ela estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele lhe mandaria dar açoites.
— Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? perguntou Cândido Neves.
Não estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficara na farmácia, à espera dele. Também é certo que não costumava dizer grandes coisas. Foi arrastando a escrava pela Rua dos Ourives, em direção à da Alfândega, onde residia o senhor. Na esquina desta a luta cresceu; a escrava pôs os pés à parede, recuou com grande esforço, inutilmente. O que alcançou foi, apesar de ser a casa próxima, gastar mais tempo em lá chegar do que devera. Chegou, enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas em vão. O senhor estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.
— Aqui está a fujona, disse Cândido Neves.
— É ela mesma.
— Meu senhor!
— Anda, entra...
Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinquenta mil-réis, enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia, levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou.
O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono. Cândido Neves viu todo esse espetáculo. Não sabia que horas eram. Quaisquer que fossem, urgia correr à Rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem querer conhecer as consequências do desastre.
Quando lá chegou, viu o farmacêutico sozinho, sem o filho que lhe entregara. Quis esganá-lo. Felizmente, o farmacêutico explicou tudo a tempo; o menino estava lá dentro com a família, e ambos entraram. O pai recebeu o filho com a mesma fúria com que pegara a escrava fujona de há pouco, fúria diversa, naturalmente, fúria de amor. Agradeceu depressa e mal, e saiu às carreiras, não para a Roda dos Enjeitados, mas para a casa de empréstimo, com o filho e os cem mil-réis de gratificação. Tia Mônica, ouvida a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia os cem mil-réis. Disse, é verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga. Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas, verdadeiras, abençoava a fuga e
não se lhe dava do aborto.
—Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração.

Machado de Assis


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29/10/2014

Dia Nacional do Livro


DIA NACIONAL DO LIVRO

O dia 29 de Outubro foi escolhido como Dia Nacional do Livro em homenagem à fundação da Biblioteca Nacional, que ocorreu em 1810. 


Para a primeira biblioteca do Brasil, Portugal disponibilizou um acervo bibliográfico muito rico, vindos da Real Biblioteca Portuguesa, com mais de sessenta mil objetos. O acervo era composto por medalhas, moedas, livros, manuscritos, mapas, etc. As primeiras acomodações da Biblioteca foram em salas do Hospital da Ordem Terceira do Carmo, na cidade do Rio de Janeiro.

O primeiro livro publicado no Brasil foi “Marília de Dirceu”, de Tomás Antônio Gonzaga, mas nessa época a imprensa sofria censura do Imperador. O imperador do país fazia uma leitura prévia dos mesmos, a fim de liberar ou não o seu conteúdo, funcionando como censura. Só na década de 1930 houve um crescimento editorial, após a fundação da Companhia Editora Nacional pelo escritor Monteiro Lobato, em outubro de 1925.

A escolha da data foi em razão da transferência da mesma para outro local, no dia 29 de outubro de 1810, fundando-se assim a Biblioteca Nacional do Livro, pela coroa portuguesa. Da data da fundação até por volta de 1914, para se fazer consultas aos materiais da biblioteca era necessária uma autorização prévia.

Os livros são um conjunto de folhas impressas, onde o escritor coloca suas ideias, a fim de deixá-las registradas ou para que outras pessoas possam tomar conhecimento das mesmas. Eles podem variar no gênero dos textos apresentados, sendo documentário, romance, suspense, ficção, autoajuda, bíblico, religioso, poema e poesia, disciplinas escolares, profissões e uma infinidade de áreas.

Para se publicar um livro, o autor deve procurar uma editora a fim de apresentar seu material, que deverá estar devidamente registrado em cartório, para garantir os direitos autorais.

A editora se encarrega de fazer a correção do texto, de acordo com as normas cultas da língua, além de sugerir algumas melhoras ao mesmo. Após a edição do texto, a editora cuida do título da obra, que deve servir como atrativo ao público, passando então para o preparo da capa, através da ilustração, impressão da quantidade de volumes e montagem dos exemplares. A editora também é responsável pela divulgação do material, pois é de seu interesse vender o produto.

Após a criação da prensa tipográfica, por Johannes Gutenberg (1398-1468), deu-se a publicação do primeiro livro em série, que ficou conhecido como a Bíblia de Gutenberg. A obra foi apresentada em 642 páginas e a primeira tiragem foi de duzentos exemplares. Essa invenção marcou a passagem da era medieval para a era moderna.

E atualmente os livros, sejam nacionais ou internacionais, são muitos queridos. Leitores ainda preferem livros impressos aos digitais. Mas independente de onde ou como, o importante é que os livros ainda estejam no nosso dia-a-dia.

Desejamos a todos vocês uma ótima leitura neste Dia Nacional do Livro!!

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28/10/2014

RESENHA - Barba Negra: O Diário Perdido (Christie Golden)

Ficha técnica:
Referência bibliográfica: GOLDEN, Christie. Assassin’s Creed – Barba Negra: O Diário Perdido. 1ª edição. Rio de Janeiro, Galera Record, 2014. 148 páginas.
Gênero: Fantasia histórica
Temas: Pirataria, Assassinos, Corsários, Templários.
Categoria: Literatura Estrangeira; Literatura Norte Americana.
Ano de lançamento: 2014













“Quando não estão trabalhando, os marinheiros julgam que o tempo pesa em suas mãos. Pior de tudo é quando o vento está parado, como novamente no dia de hoje, e as Rações – e até os vermes – começam a minguar. Para passar o tempo, muitos marinheiros usam suas habilidades nos nós e produzem coisas de grande beleza, e outros fazem bom uso dos dados de queijo nos jogos.
 A trapaça, é claro, é mal vista, pois se deve poder confiar em um companheiro de mar, ou não seríamos melhores do que piratas. Incluo para seu exame, leitor, um Ás a mais que um de meus ajudantes de convés por acaso tinha em sua pessoa em um jogo de cartas noite passada. Eu o puni muito bem por isto. Ele agora tem um buraco imenso na orelha, e não é para uma argola.”
* Assassin’s Creed – Barba Negra: O Diário Perdido (pág. 11 e 12).



“Ao futuro leitor deste Diário, o Corsário Edward Thatch envia seus melhores votos e o encoraja a ter uma garrafa de um bom Rum a seu lado enquanto lê estas páginas. Suponho que, em certos momentos, uma boa bebida forte será bem-vinda, como trégua das aventuras aflitivas que serão descritas aqui”.
Usando os talentos do jovem tripulante e artista que servia como seu escriba, Edward Thatch narra suas aventuras e feitos com exclusividade. Tudo – de seu célebre temperamento, sua decisão de adotar a pirataria e sua criação calculada com brilhantismo do mito do Barba Negra ao bloqueio audacioso de Charleston, na Carolina do Sul, sua improvável amizade com “o cavalheiro pirata” Stede Bonnet e sua relação com o até então desconhecido Edward Kenway – é registrado com fidelidade, em suas próprias palavras. Soltem as velas, velejem ao vento nesta incrível jornada a bordo do navio do pirata mais temido dos sete mares.
A obra “Assassin’s Creed: Barba Negra – O Diário Perdido” traz para os leitores a visão do infame Edward Thatch (mais conhecido pela sua alcunha “Barba Negra”) a respeito de alguns dos acontecimentos narrados em Assassin’s Creed - Bandeira Negra (resenha aqui). O livro começa com a apresentação do Corsário desejando a todos os leitores – que tiverem a afortunada oportunidade de encontrar seu diário perdido – seus melhores votos e uma boa garrafa de rum. O ano é 1713, ele e sua tripulação ainda comemoravam o ano novo no dia 02 de janeiro, mesmo sendo um inglês – estes comemoram o ano novo no dia 25 de março – não desperdiçaria uma oportunidade de beber por um detalhe como este. Como um homem benevolente, Edward confere os devidos créditos ao jovem marinheiro de sua tripulação (que se identifica na obra apenas como C.J), cujas mãos habilidosas tanto na escrita como no desenho, começam a dar vida ao diário de um dos homens mais temidos da Era de Ouro da Pirataria.
          O capitão mostra aos menos conhecedores da vida de marujo, o que os homens do mar fazem, como por exemplo, estocar comida, o que comer e o que não comer, jogatinas, o trabalho de cada um dentro do navio, etc.
        Logo no início dos registros, ele conta como conheceu o jovem Edward Kenway, marujo do navio Emperor. O capitão deste, com sede de ganância e fortuna, atacou um aliado, o Amazon Galley. Edward Thatch e sua tripulação, a bordo do Sea Dog’s Bite foram ao seu socorro. Depois de um combate, quase toda a tripulação morreu, sobrando apenas três. Um deles era Kenway.
          Depois dos relatos deste embate, Kenway entra para a tripulação do corsário e a partir daí uma boa amizade se desenrola entre os dois. Nas palavras do próprio capitão, Kenway era um “Sedutor, patife, conspirador e antes de tudo isso, um verdadeiro amigo”. Foi a partir dessa declaração que Thatch resolve abrir o diário para fazer menções ao jovem, por ele ser um “pobre rapaz, que parece não ter um escriba ou artista adequado para fazer crônica de suas aventuras”.
           Na obra, Thatch conta a história de um personagem citado tanto no livro Bandeira Negra, quanto no jogo de mesmo nome: William Kidd. Seu nome era uma lenda entre os marujos e sua história regada a sangue, traição e ganância. Kidd é um nome importante na trama por dois motivos: primeiro, que é por conta de seu suposto mapa do tesouro, que a saga de Edward Kenway como assassino começa (mesmo que ele não saiba disso); e segundo por ele ter um “filho” bastardo que aparece na trama. Gostei muito de ver como deram os devidos créditos à sua lenda.
           Temos também o relato da improvável (diria quase inconcebível) amizade entre Stede Bonnet e Thatch. Afinal, um pirata que COMPRA o seu próprio navio não deveria ser merecedor da atenção do grande pirata. Mas contrariando toda a lógica, Thatch o levou sob sua tutela, a fim de ensinar “Capitão Bonnet” a ser um terror dos mares.

Nota do escriba: Stede Bonnet é, sem hesitação, o mais estranho pirata que se pode imaginar. É asseado, melindroso e tímido. Receio que nosso Capitão logo o considerará pouco divertido e ele será abandonado em uma ilha deserta. Assim espero. Pág. 79

               A ótica de Thatch se mostra interessante e preenche algumas lacunas que ficaram de fora do livro “Bandeira Negra”, pois aquele é também narrado em primeira pessoa, então alguns acontecimentos ficaram apenas à vista de Kenway. O relato de Barba Negra oferece ao leitor um ponto de vista alternativo para a história. O livro tem um humor negro ácido, os relatos do pirata são em sua maioria curtos, mas afetam o leitor bem onde interessa: nos acontecimentos que cercam as aventuras e intrigas do universo de Assassin’s Creed – Bandeira Negra.
Mais do que tudo, a obra descreve o homem por trás da lenda.
         A única crítica que posso fazer a essa obra é que em certos momentos algumas palavras são censuradas. Pelo que pude constatar, são palavrões que Thatch pronuncia. Creio que se você está ambientando uma obra em um local onde o uso do palavrão é corriqueiro, a censura a meu ver é desnecessária. E mesmo que seja para preservar um público mais jovem, existem coisas escritas nesse livro muito piores que palavrões.              
           O livro é narrado em primeira pessoa. Através de seu escriba pessoal, Edward fala diretamente com quem está lendo seus relatos, tanto que em alguns momentos ele chega a se referir diretamente ao leitor (Leitor, eu poderia arder no inferno por algumas coisas que fiz, e dançar com o Categute do demônio, mas digo-lhe a verdade: homens como Bellomont estarão dançando ao meu lado. Pág. 38). O escriba também participa (de uma forma mais humilde) da  redação do diário. Através de notas, registra seus próprios pensamentos a respeito das passagens narradas pelo capitão.
         A fluidez na narrativa é tranquila, apenas alguns termos usados na época (1713 a 1718) e termos náuticos podem ser um entrave ao leitor, mas nada que o Google não resolva rapidamente. A revisão está impecável, nenhum erro aparente. Quanto à formatação das fontes, o leitor pode se sentir um pouco incomodado na leitura, pois usaram uma fonte que muitas vezes fica difícil de ler (ainda mais se você estiver sacolejando dentro de um ônibus). O livro todo se foca na história do pirata Barba Negra e à medida que a história avança, ele conta sobre outros personagens como Willian Kidd e Stede Bonnet. Como o livro está em forma de diário, as passagens são definidas por datas (dia/mês/ano). Algumas são bem curtas, outras tomam várias páginas. Ele faz algumas colagens dentro do diário, como o mapa dos arredores de Nassau, a carta de autorização expedida pela Rainha Anne para os Corsários e até um cartaz de procurado com a foto do Barba Negra. A qualidade das ilustrações é magnífica. Fizeram um trabalho sensacional nas gravuras que tomam algumas páginas do livro. Como o escriba também era ilustrador, algumas passagens do diário são ilustradas (veja na galeria abaixo). A capa é dura e mostra o desenho do símbolo dos assassinos da época. O livro por si só é uma obra de arte, vale a pena a aquisição, mesmo que você não seja fã da série, pode começar a gostar a partir deste livro.

Clique nas imagens para ampliar








Christie Golden nasceu em 21 de novembro de 1963 em Atlanta, Georgia. Aos 13 anos de idade, Golden gastava tardes inteiras assistindo A New Hope. Após completar o ensino médio, Golden estudou na Universidade da Virginia, onde se formou em Inglês e passou um semestre do curso na universidade de Cambridge, na Inglaterra. Best seller do New York Times e vencedora de vários prêmios, é autora de mais de 35 romances e diversos contos nos gêneros de ficção científica, fantasia e terror — entre eles mais de 10 romances da célebre série Star Trek e três da saga Star Wars. Jogadora contumaz da série World of Warcraft, ela já publicou dois contos em mangá e vários romances sobre esse universo.
          Caro marujo, se você quer se aventurar pelos sete mares, conhecer novos horizontes, cidades perdidas, boas tavernas com o melhor rum, meretrizes com os mais generosos decotes, viver intensamente uma vida de perigos e riquezas, este livro é para você. Se você é um fã da série Assassin’s Creed, este livro é quase que obrigatório, pois mostra a visão de um homem que deixou sua marca no universo da franquia. E se você é um colecionador de edições especiais de livros, você precisa adicionar este à sua coleção.
               Bebei, amigos yo ho!

Querem saber a opinião do Barba Negra sobre Edward Kenway? Assistam o trailer!



Bibliografia de Christie Golden:


Livros (obras publicadas no Brasil):

  • World of Warcraft: Marés da Guerra - Galera Record (2012);
  • Starcraft - Ponto Crítico - Galera Record (2013);
  • World of Warcraft - A Ruptura: Prelúdio de Cataclismo - Galera Record (2013);
  • Assassin's Creed - Barba Negra: O diário perdido - Galera Record (2014);
  • World of Warcraft: Crimes de guerra - Galera Record (2014).




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27/10/2014

PROMOÇÃO: 1000 curtidas

Olá, leitores da Academia!

Hoje tem promoção! Estamos comemorando nossa marca de 1000 curtidas em nossa fanpage e quem ganha o presente é você, leitor!


Quer saber o que vamos sortear, ai vai:

- O livro “A Máquina de contar histórias”, do autor +Maurício Gomyde  AUTOGRAFADO!

- Vários marcadores que temos colecionado ao longo de nossa jornada como blogueiros literários. E um detalhe: são todos nacionais!

Queremos agradecer profundamente as pessoas que acreditam nesse projeto de levar a literatura nacional a alcançar cada vez mais degraus até o topo.  


Confiram as regras aqui e boa sorte!
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24/10/2014

Os Três Grãos de Milho



Certo mancebo, cuja infância venturosa fora o mimo dos pais, perdendo-os, achou-se só no mundo, sem amparo nem conselho, tendo, por haveres, as terras férteis dum sítio onde havia um paiol abarrotado de milho.
Julgando que nunca se esgotaria tamanha provisão deixou-se ficar em casa, a comer e a dormir, vendendo, a quem o buscava, o milho que herdara.
As terras abandonadas foram perdendo o viço e o mato, crescendo vigoroso, em pouco sufocou as sementeiras.
Uma manhã, ainda nos dias fartos, estava o soberbo e preguiçoso herdeiro a balançar-se na rede, quando um pobre homem passou pedindo esmola.
Era um desgraçado que habitava na vizinhança, tendo apenas uma choça e alguns palmos de terra.
O herdeiro, ouvindo a voz do pobre, longe de compadecer-se, sorriu e, por esmola, atirou-lhe, com desprezo, três grãos de milho.
Foi-se o pobre sem dizer palavra e o preguiçoso ficou-se a rir balançando-se na rede.
Correram tempos. Já o mato bravo chegava à casa e o rapaz, fiado sempre no paiol de milho, vivia descuidadamente, quando, recorrendo ao celeiro, achou-o vazio porque toda a provisão havia passado às mãos dos compradores.
Só então, compreendendo a sua miséria e sem ânimo de atirar-se ao trabalho, descorçoado, pôs-se a lamentar-se e chorava, quando viu chegar, em formoso cavalo, um homem forte e bem posto, que ao dar com ele em tão miserável condição, deteve o animal e perguntou:
- Que tendes? Por que assim vos lamentais?
- Morro à míngua! Soluçou o infeliz. Tinha um sítio fértil e as ervas más tomaram-mo. Tinha um paiol abarrotado de milho e esgotou-se. Nada mais possuo.
- A culpa é vossa, disse o cavalheiro. Julgando que nunca acabaria a herança que tivestes de vossos pais, abandonastes a terra que, dantes, não negava frutos. Se vos não sentis com ânimo para cuidar do sítio, vendei-mo. A mim darão bom prêmio as terras que dizeis estéreis e, como pegam com o meu sítio, faz-me conta comprá-las para dilatar a minha lavoura. Entremos em ajuste. E combinaram.
Justamente no dia em que o rapaz recebia do homem o preço estipulado, perguntou-lhe o comprador:
- Sabeis com que dinheiro vos pago? Com o que me deram os três grãos de milho que, desprezivelmente, me atirastes. Levei-os comigo e, como não tinha ferramenta, com as próprias mãos fiz uma cova na terra e a terra devolveu-me o depósito muitas vezes dobrado. Plantando os grãos que vieram, consegui um canteiro, deu-me o canteiro uma roça, deu-me a roça um campo e fui sempre trocando os lucros por novos benefícios: primeiro em sementes, depois em gado, depois em máquinas e hoje, com eles, adquiro as terras de onde saiu o capital modesto com que comecei a grangear fortuna.
Vede agora o que fiz com três grãos de milho e perseverança no trabalho e comparai com o que vos acontece, não obstante haverdes possuído terras vastas e um grande paiol atestado de cereal.
Não soubestes aproveitar os bens que herdastes e, mais uma vez, com a vossa desgraça, fica confirmado que a fortuna, seja embora incontável, cede à miséria quando é mal dirigida.
O ouro foge por entre os dedos como a água e a terra é um cofre seguro e maravilhoso que restitui centuplicado o benefício que se lhe faz.
Sem mais dizer – e dissera o bastante – o lavrador deu as rédeas ao cavalo e foi-se.

Coelho Neto

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22/10/2014

Os 10 livros mais marcantes no Brasil, segundo o Facebook


Olá, leitores da Academia!
Hoje trago para vocês uma lista curiosa que o Facebook criou recentemente. Confiram na matéria abaixo:

          Por volta de setembro, surgiu no Facebook uma brincadeira inocente – os amigos pediam, uns aos outros, que listassem seus 10 livros favoritos. As instruções eram simples: a pessoa não devia pensar demais no assunto, apenas escrever de bate pronto os 10 títulos que, lidos ao longo da vida, tinham marcado mais  sua experiência como leitor. Naquele mês, o grupo responsável pela análise de dados do Facebook decidiu analisar os dados dessa brincadeira e montou uma lista com os 10 livros mais amados no mundo. Ou, ao menos, os 10 livros mais amados por usuários do Facebook. Agora, com mais tempo de análise, eles decidiram quebrar esses dados por país.
        O Facebook examinou dados de países que amealharam mais de 20 mil respostas à enquete. Foram eles Brasil, França, Itália,índia, México e Filipinas. Na maioria deles, “o menino que sobreviveu” ocupa a primeira posição: a série Harry Potter é desbancada apenas no México, onde os leitores preferem Cem anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez. Outros títulos que se repetem com insistência são O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, e a Bíblia. A escolha pode, com certa segurança, ser relacionada com a idade das pessoas que participaram da brincadeira: a média brasileira foi de 28 anos. Nos outros países, girou em torno de 24. São internautas jovens, muitos dos quais cresceram lendo Harry Potter.
         Depois de divulgar o resultado mundial do desafio, chegou a vez de saber quais os livros mais marcantes para os brasileiros. Durante a pesquisa, foram analisadas mais de 20 mil mensagens de usuários com idade média de 28 anos, em sua maioria (72%) mulheres. Confira abaixo a lista:

1. Harry Potter - J.K. Rowling
2. A Culpa é das Estrelas - John Green
3. O Pequeno Príncipe - Antoine de Saint-Exupéry
4. A menina que roubava livros - Markus Zusak
5. A Cabana - William P. Young
6. Caçador de Pipas - Khaled Hosseini
7. Jogos Vorazes - Suzanne Collins
8. A Seleção - Kiera Cass
9. Coração de Tinta - Cornelia Funke
10. Bíblia



          Como podem ver, não há nenhum livro brasileiro nessa lista, infelizmente. O único brasileiro citado é Paulo Coelho – seu livro mais famoso, O Alquimista, é um dos favoritos dos leitores...franceses. Os escritores na França são conhecidos por ter certa birra com relação a Coelho. Não devem ter gostado nada desse resultado. Coelho também desponta entre os favoritos da Índia.






A lista original, com os livros mais marcantes mundialmente, ficou assim:

1. A série Harry Potter – J.K.Rowling
2. O Sol é para Todos, Harper Lee
3. O Senhor do Anéis, J.R.R. Tolkien 
4. O Hobbit, J.R.R. Tolkien 
5. Orgulho e Preconceito, Jane Austen
6. A Bíblia
7. O Guia do Mochileiro das Galáxias, Douglas Adams
8. A trilogia Jogos Vorazes, Suzanne Collins
9. O apanhador no campo de centeio, J.D. Salinger
10. O Grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald 
11. 1984, George Orwell
12. Mulherzinhas, Louisa May Alcott
13. Jane Eyre, Charlotte Bronte 
14. A dança da morte, Stephen King 
15. E o vento levou, Margaret Mitchell
16. A Wrinkle in Time, Madeleine L'Engle
17. O conto da aia, Margaret Atwood
18. O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, C.S. Lewis
19. O Alquimista, Paulo Coelho
20. Anne de Green Gables, L.M. Montgomery

E ai, leitores? Algum desses livros está na sua lista? Porque vocês acham que não teve nenhum livro nacional entre os listados? Comentem!

Fonte: Revista Época

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21/10/2014

RESENHA - Assassin's Creed - Bandeira Negra (Oliver Bowden)

Ficha técnica:
Referência bibliográfica: BOWDEN, Oliver. Assassin’s Creed – Bandeira negra. Rio de Janeiro, Galera Record, 2013. Tradução: Ryta Vinagre. 1ª edição, 336 páginas.
Gênero: Ficção, Aventura, Fantasia Histórica.
Temas: Irmandade de assassinos; pirataria.
Categoria: Literatura estrangeira; Literatura Inglesa.
Ano de lançamento: 2013 na Grã-Bretanha; 2013 no Brasil.
Série: Assassin’s Creed – Renascença (Livro 1); Assassin’s Creed – Irmandade (Livro 2); Assassin’s Creed – A cruzada secreta (Livro 3); Assassin’s Creed – Revelações (Livro 4); Assassin’s Creed – Renegado (Livro 5); Assassin’s Creed – Bandeira negra (Livro 6).










“Não há nada mais ruidoso como o tiro de um canhão. Especialmente quando ele soa em seus ouvidos.
É como ser atacado pelo nada. Um nada que parece querer esmagar você. Como se o próprio ar a sua volta tentasse esmagá-lo. E você nem sabe se é um truque de sua visão, chocada e ofuscada pela explosão, ou se o mundo está realmente se sacudindo. Provavelmente, nem importa.
Em algum lugar, o tiro de impacto. Pranchas de barco se lascam. Homens com braços e pernas decepados, e homens que olham para baixo e, poucos segundos antes de morrer, percebem que metade do corpo foi arrancada e começam a gritar. Só o que você ouve logo em seguida é o rangido do casco danificado, os gritos dos mortos e moribundos.”
*Assassin’s Creed - Bandeira Negra (Pág. 105).


          Edward Kenway, filho de Bernard Kenway e Linette Kenway, um jovem impetuoso, ambicioso, tão habilidoso com as mulheres quanto era com a cerveja, via-se numa vida sem pretensões, tendo que ajudar nos negócios do pai – um criador de ovelhas. Preso num mundo ao qual não pertencia. Certo dia, em mais uma de suas bebedeiras, impelido a ajudar uma dama que seria alvo de três homens ("Um destino pior que a morte"). Depois de uma bela surra, por conta da desvantagem numérica, fora salvo pela jovem e linda Caroline Scott, filha de Emmett Scott, um rico mercador que negociava chá. O jovem Edward logo se apaixonou por ela, mas um abismo os separava. Ela era rica e ele, pobre. Sem ter condições de sustentar sua paixão pela moça, ele se vê num beco sem saída. Até a chegada de um recrutador. O homem oferece uma chance a ele de virar Corsário. Bucaneiros a serviço da Coroa, que são autorizados a fazer saques contra os inimigos da Rainha Ana.
              Depois de pensar muito a respeito do pedido, eventos se desenrolam que acabam por fazê-lo abraçar a vida de Corsário, para que no futuro, ele possa voltar e dar a sua amada a vida de luxo e riqueza a que ela estava acostumada. Não que ela quisesse isso. Caroline estava feliz em ser como ele, mas seu orgulho de homem falou mais alto que a razão, sua vontade de se aventurar virou seu combustível e um atentado que marcaria sua vida o fizeram embarcar em um navio para o mar aberto. No entanto, nem sempre os planos que traçamos dão certo e o destino acaba por transformar o jovem Kenway em inimigo da Coroa, algo que ele jamais planejara para si, algo que ele repudiava com todas as forças, algo que poderia separá-lo de sua amada para sempre.
              Edward Kenway tornou-se um pirata.
            O Livro começa contando a história de Edward quando ele tinha apenas 17 anos. De como ele conheceu Caroline, como se apaixonou e como colocou na cabeça que queria dar uma vida melhor para a mulher pela qual tinha se apaixonado perdidamente. Esse início me desagradou, pelo simples fato de que ele se parece muito com o início da vida de Ezio Auditore, protagonista de outros títulos da franquia Assassin’s Creed. Um jovem, caçador de brigas, que tem uma família rival, gosta de uma donzela rica, quer se casar com ela, mas acontece algo terrível com sua família, o que o obriga a trilhar outros caminhos diferentes daquela vida que ele tinha antes. Acho que poderiam ter feito um passado diferente para o Edward e não somente reciclar um já utilizado, com alterações aqui e ali.
              O livro fica muito interessante depois que ele entra para a tripulação do Emperor e aprende as minúcias que a vida nos mares requer. Ao contrário de Ezio ou Altair (outro membro da Irmandade de Assassinos), Edward não tinha qualquer pretensão de se tornar um assassino. Tudo se resumia a saquear, ficar rico e voltar para Caroline. Isso o levou à vida de Corsário, que inevitavelmente o levou à vida de pirata, depois impostor (vocês vão ter de ler para entender essa) e depois Assassino.
              Como sou fã de histórias ambientadas num plano mais real, usando-se de elementos trazidos do que de fato aconteceu ou acontece no mundo com a adição de algum elemento feérico, acompanho a série Assassin’s Creed desde o primeiro livro e “Assassin’s Creed – Bandeira Negra”, sexto volume da série, não difere dos outros, sendo esta também uma viagem histórica ao passado. Uma aula de história, onde seu professor é o livro e seu dever de casa é pesquisar sobre o que de fato aconteceu na época retratada. E como a obra é sobre a Era de Ouro da pirataria, um tema que eu aprendi a gosto muito ao ver Piratas do Caribe, foi mais um ponto positivo para eu partir para a leitura.
           Para mim, foi um entrave o uso excessivo de sinônimos. Acredito que alguns sejam necessários devido à época em que a trama se passa, mas por conta deles tive de parar mais vezes do que posso contar com os dedos das mãos para pesquisar palavras que fugiam do meu vocabulário habitual. Demorei mais tempo do que pretendia lendo o livro por conta das pausas didáticas. Como já conhecia um pouco de termos náuticos, essa parte não foi um problema tão grande e agora posso até me arriscar a entrar em um navio pirata e me fazer de entendido do assunto (ao menos um pouco entendido).
           Se você, leitor, nunca leu algum livro que aborda termos náuticos e de como era a comunicação entre os marinheiros na época da história, não conhece as lendas da era de ouro da pirataria e tem dificuldade com palavras mais pomposas, sugiro que leia este livro com o Google aberto, ou ao menos um dicionário por perto. O livro é recheado de termos náuticos. Bombordo, estibordo, proa são só alguns exemplos simples. O autor se utiliza muito de palavras difíceis para dar continuidade ao texto. Um leitor não acostumado vai demorar um pouco mais para terminar de ler esse livro (se quiser saber o que as palavras significam). E, claro, o livro é uma caminhada pela história como qualquer outro da série. Personagens ícones de sua época (que realmente existiram) podem ser encontrados nas linhas escritas pelo historiador Oliver. Barba Negra, terror dos sete mares, é um dos maiores exemplos dessa trama, assim como Stede Bonnet, Willian Kidd, Charles Vane, Cálico Jack, Anne Bonny e Mary Read. Ah, cuidado para não se confundir, o nome verdadeiro do Barba Negra é Edward Thatch, o mesmo primeiro nome do protagonista: Edward James Kenway.
                Bowden, dessa vez, faz uso do narrador em primeira pessoa. Edward conta sua própria história a um ouvinte não revelado. O uso desse recurso é tão presente, que às vezes o leitor pode imaginar Edward falando com ele enquanto lê sobre suas aventuras. "Sim, sim, sei o que você está pensando. E sim, sim, eu me senti meio culpado por isso. Mas não culpado demais". Pág. 39.
                A fluidez da narrativa não fica livre de pausas, já que o autor (e a pessoa que traduziu a obra para o português) usa muitos sinônimos na obra. Edward vai sendo construído à medida que a história se desenrola, não há história de outros personagens, apenas o que Edward descobre e conta ao ouvinte é revelado no livro. O uso de datas nos mantém atentos à linha temporal da história, tanto que, se o leitor mais interessado desejar, pode procurar registros históricos da época e encontrar fatos que realmente aconteceram, alterados de forma a dar espaço ao protagonista e toda a batalha entre a ordem dos Assassinos e os Templários. Apesar de fazer parte de uma série, este livro não estabelece uma relação de sequência direta com os outros títulos (podendo ser lido separadamente dos outros). Os acontecimentos do livro se passam muitos anos antes da história de Connor ( protagonista de “Assassin’s Creed – Renegado”, 5º livro da série, 3º jogo da franquia), neto de Edward acontecerem. O que os une é a eterna luta de Assassinos e Templários, esses últimos, ávidos pelo controle do mundo a seu modo.  
              Assim como nos outros livros da série, os acontecimentos se passam rapidamente. Uma hora, vemos o protagonista com certa idade ou contando alguma coisa que aconteceu com ele em determinado ano; nas páginas seguintes já se passaram meses ou até mesmo anos desde o último acontecimento. Alguns leitores podem estranhar essa linha de acontecimentos veloz que o autor nos apresenta e até achar que tudo não passa de preguiça de escrever mais, porém não é bem assim. O livro foi adaptado de uma franquia de jogos eletrônicos. Seria muito complicado ambientar o jogo inteiro dentro das páginas do livro. Alguns acontecimentos passaram rápidos demais no livro, pois no jogo, há uma série de missões secundárias que podem ou não preencher essa lacuna deixada pelo livro. Outro entrave é escrever TUDO o que aconteceu com o protagonista em todos os anos que ele descreve suas aventuras. Alguns momentos não precisam ser lembrados porque não há nada de muito importante neles. Essa é uma característica do autor. Contar sobre toda uma vida, em um único volume.
                A série  “Assassin’s Creed” foi transportada para as páginas por Oliver Bowden, um dos pseudônimos utilizado pelo historiador, escritor e gamer Anton Gill, que também adota o pseudônimo Ray Evans. Filho de mãe inglesa e pai alemão, este inglês nasceu em Ilford, Essex  no ano de 1948. Especialista na História Renascentista, Gill já escreveu muitos títulos entre ficção e não-ficção. Antes de dedicar-se à literatura e a história, Anton Gill trabalhou no Royal Court Theatre, em Londres, no Conselho de Artes e também na TV BBC. Casado, vive em Paris, França, com a mulher.
                Devido ao fato de a obra ser baseada numa franquia bem sucedida de jogos para vídeo game, o livro é extremamente indicado para os leitores que já puseram as mãos em sua versão dos consoles. Uma imersão diferente sobre uma mesma história. Trocar os controles pelas páginas do livro pode acabar se tornando um vício a mais para o jogador/leitor. Para aqueles que não interagem muito com vídeo games, não se preocupem, não é preciso jogar para ler. Tudo está muito bem explanado nas páginas do livro. Também recomendo para aqueles que adoram pesquisar sobre histórias antigas e personagens lendários de suas épocas.
                A série Assassin’s Creed é sem dúvida um épico de seu gênero.



Bibliografia de Oliver Bowden (ordem cronológica):

Livros (publicados no Brasil pelo pseudônimo Oliver Bowden):

  • Assassin s Creed: Renascença - Editora Record (2011)
  • Assassin s Creed: Irmandade - Editora Record (2012)
  • Assassin s Creed: A cruzada secreta - Editora Record (2012)
  • Assassin s Creed: Renegado - Editora Record (2013)
  • Assassin s Creed: Revelações - Editora Record (2013)
  • Assassin`s Creed: Bandeira negra - Editora Record (2013)

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20/10/2014

Leitura tátil em 3D para crianças




Olá, queridos leitores.
                Hoje temos uma boa notícia para compartilhar. Mas não é algo que vai influenciar a minha vida ou a sua, já que você está lendo esse post. Deixa-me explicar melhor: essa notícia vai influenciar – e muito – a vida de várias crianças com alguma deficiência ou redução visual. Eis a boa nova: um projeto desenvolvido nos EUA transforma desenhos de livros infantis em figuras táteis para que crianças com limitações visuais também possam desfrutar o prazer da literatura. Simples e genial!!!
                Confira abaixo a transcrição da matéria escrita por Filipe Serrano para a revista INFO.

***

                Projeto transforma desenhos de livros infantis em figuras táteis, criadas em 3D. A intenção é estimular crianças com deficiência visual a ler.
                A impressão 3D está estimulando crianças com deficiência visual a ler. Com impressoras, cientistas da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, transformaram desenhos de livros infantis em figuras em três dimensões. Assim, as crianças tocam na forma dos objetos e dos personagens enquanto pais ou professores leem a história. A iniciativa Tactile Picture Books Project é liderada pelo professor Tom Yeh.
                Segundo Yeh, o objetivo é desenvolver um software que permite aos pais, no futuro, fotografar os desenhos dos livros infantis e transformá-los em formas 3D com uma impressora em casa.
                Tom Yeh e equipe têm trabalhado com crianças de Denver para melhorar a representação das figuras. Para o pesquisador, a vantagem é que as crianças têm contato com os livros antes de aprender os sinais em braile. O contato ainda estimula o desenvolvimento tátil. “Cada criança tem dificuldades visuais diferentes, e poderemos customizar os livros para cada uma”, diz Yeh.

***

               Nós da Academia Literária-DF louvamos a iniciativa e ficamos muito felizes em saber que mesmo quem não pode ver e ler ainda pode aproveitar a magia das histórias e dos livros.
                Quem quiser conhecer mais sobre a iniciativa, pode aproveitar e visitar o site do projeto. Vale lembrar que o site é em inglês.



Referência do texto:
- SERRANO, Filipe. Leitura Tátil em 3D. Publicado na revista “INFO”, edição nº 346, outubro de 2014. Página 17.

Crédito das imagens:
- Imagem de capa: Blog Beyond Design.
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17/10/2014

Trezentas Onças





– Eu tropeava, nesse tempo. Duma feita que viajava de escoteiro, com a guaiaca empanzinada de onças de ouro, vim parar aqui neste mesmo passo, por me ficar mais perto da estância da Coronilha, onde devia pousar.
Parece que foi ontem!... Era por fevereiro; eu vinha abombado da troteada.
– Olhe, ali, na restinga, à sombra daquela mesma reboleira de mato, que está nos vendo, na beira do passo, desencilhei; e estendido nos pelegos, a cabeça no lombilho, com o chapéu sobre os olhos, fiz uma sesteada morruda.
Despertando, ouvindo o ruído manso da água tão limpa e tão fresca rolando sobre o pedregulho, tive ganas de me banhar; até para quebrar a lombeira... e fui-me à água que nem capincho!
Debaixo da barranca havia um fundão onde mergulhei umas quantas vezes; e sempre puxei umas braçadas, poucas, porque não tinha cancha para um bom nado.
E solito e no silêncio, tornei a vestir-me, encilhei o zaino e montei.
Daquela vereda andei como três léguas, chegando à estância cedo ainda, obra assim de braça e meia de sol.
– Ah!... esqueci de dizer-lhe que andava comigo um cachorrinho brasino, um cusco mui esperto e boa vigia. Era das crianças, mas às vezes dava-me para acompanhar-me, e depois de sair a porteira, nem por nada fazia cara-volta, a não ser comigo. E nas viagens dormia sempre ao meu lado, sobre a ponta da carona, na cabeceira dos arreios.
Por sinal que uma noite...
Mas isto é outra cousa; vamos ao caso.
Durante a troteada bem reparei que volta e meia o cusco parava-se na estrada e latia e corria pra trás, e olhava-me, olhava-me, e latia de novo e troteava um pouco sobre o rastro; - parecia que o bichinho estava me chamando!... Mas como eu ia, ele tornava a alcançar-me, para daí a pouco recomeçar.
– Pois, amigo! Não lhe conto nada! Quando botei o pé em terra na ramada da estância, ao tempo que dava as – boas-tardes – ao dono da casa, aguentei um tirão seco no coração... não senti na cintura o peso da guaiaca!
Tinha perdido trezentas onças de ouro que levava, para pagamento de gados que ia levantar.
E logo passou-me pelos olhos um clarão de cegar, depois uns coriscos tirante a roxo... depois tudo me ficou cinzento, para escuro...
Eu era mui pobre – e ainda hoje, é como vancê sabe... - ; estava começando a vida, e o dinheiro era do meu patrão, um charqueador, sujeito de contas mui limpas e brabo como uma manga de pedras...
Assim, de meio assombrado me fui repondo quando ouvi que indagavam:
– Então patrício? Está doente?
– Obrigado! Não senhor, respondi, não é doença; é que sucedeu-me uma desgraça: perdi uma dinheirama do meu patrão...
– A la fresca!...
– É verdade... antes morresse, que isto! Que vai ele pensar agora de mim!...
– É uma dos diabos, é...; mas não se acoquine, homem!
Nisto o cusco brasino deu uns pulos ao focinho do cavalo, como querendo lambê-lo, e logo correu para a estrada, aos latidos. E olhava-me, e vinha e ia, e tornava a latir...
Ah!... E num repente lembrei-me bem de tudo.
Parecia que estava vendo o lugar da sesteada, o banho, a arrumação das roupas nuns galhos de sarandi, e, em cima de uma pedra, a guaiaca e por cima dela o cinto das armas, e até uma ponta de cigarro de que tirei uma última tragada, antes de entrar na água, e que deixei espetada num espinho, ainda fumegando, soltando uma fitinha de fumaça azul, que subia, fininha e direita, no ar sem vento...; tudo, vi tudo.
Estava lá, na beirada do passo, a guaiaca. E o remédio era um só: tocar a meia rédea, antes que outros andantes passassem.
Num vu estava a cavalo; e mal isto, o cachorrinho pegou a retouçar, numa alegria, ganindo – Deus me perdoe! – que até parecia fala.
E dei de rédea, dobrando o cotovelo do cercado. Ali logo frenteei com uma comitiva de tropeiros, com grande cavalhada por diante, e que por certo vinha tomar pouso na estância. Na cruzada nos tocamos todos na aba do sombreiro; uns quantos vinham de balandrau enfiado. Sempre me deu uma coraçonada para fazer umas perguntas... mas engoli a língua.
Amaguei o corpo e penicando de esporas, toquei a galope largo.
O cachorrinho ia ganiçando, ao lado, na sombra do cavalo, já mui comprida.
A estrada estendia-se deserta; à esquerda os campos desdobravam-se a perder de vista, serenos, verdes, clareados pela luz macia do sol morrente, manchados de pontas de gado que iam se arrolhando nos paradouros da noite; à direita, o sol, muito baixo, vermelho-dourado, entrando em massa de nuvens de beiradas luminosas.
Nos atoleiros, secos, nem um quero-quero: uma que outra perdiz, sorrateira, piava de manso por entre os pastos maduros; e longe, entre o resto da luz que fugia de um lado e a noite que vinha, peneirada, do outro, alvejava a brancura de um joão-grande, voando, sereno, quase sem mover as asas, como numa despedida triste, em que a gente também não sacode os braços...
Foi caindo uma aragem fresca; e um silêncio grande, em tudo.
O zaino era um pingaço de lei; e o cachorrinho, agora sossegado, meio de banda, de língua de fora e de rabo em pé, troteava miúdo e ligeiro dentro da polvadeira rasteira que as patas do flete levantavam.
E entrou o sol; ficou nas alturas um clarão afogueado, como de incêndio num pajonal; depois o lusco-fusco; depois, cerrou a noite escura; depois, no céu, só estrelas... só estrelas...
O zaino atirava o freio e gemia no compasso do galope, comendo caminho. Bem por cima da minha cabeça as Três-Marias tão bonitas, tão vivas, tão alinhadas, pareciam me acompanhar... lembrei-me dos meus filhinhos, que as estavam vendo, talvez; lembrei-me da minha mãe, de meu pai, que também as viram, quando eram crianças e que já as conheceram pelo seu nome de Marias, as Três-Marias. – Amigo! Vancê é moço, passa a sua vida rindo...; Deus o conserve!... sem saber nunca como é pesada a tristeza dos campos quando o coração pena!...
- Há tempos que eu não chorava!... Pois me vieram lágrimas... devagarinho, como gateando, subiram... tremiam sobre as pestanas, luziam um tempinho... e ainda quentes, no arranco do galope lá caíam elas na polvadeira da estrada, como um pingo d’água perdido, que nem mosca nem formiga daria com ele!...
Por entre as minhas lágrimas, como um sol cortando um chuvisqueiro, passou-me na lembrança a toada dum verso lá dos meus pagos:

            Quem canta refresca a alma,
            Cantar adoça o sofrer;
            Quem canta zomba da morte:
            Cantar ajuda a viver!...

Mas que cantar, podia eu!...
O zaino respirou forte e sentou, trocando a orelha, farejando no escuro: o bagual tinha reconhecido o lugar, estava no passo.
Senti o cachorrinho respirando, como assoleado. Apeei-me.
Não bulia uma folha; o silêncio, nas sombras do arvoredo, metia respeito... que medo, não, que não entra em peito de gaúcho.
Embaixo, o rumor da água pipocando sobre o pedregulho; vaga-lumes retouçando no escuro. Desci, dei com o lugar onde havia estado; tenteei os galhos do sarandi; achei a pedra onde tinha posto a guaiaca e as armas; corri as mãos por todos os lados, mais pra lá, mais pra cá...; nada! nada!...
Então, senti frio dentro da alma... o meu patrão ia dizer que eu o havia roubado!... roubado!... Pois então eu ia lá perder as onças!... Qual! Ladrão, ladrão é que era!...
E logo uma tenção ruim entrou-me nos miolos: eu devia matar-me, para não sofrer a vergonha daquela suposição.
É; era o que eu devia fazer: matar-me... e já, aqui mesmo!
Tirei a pistola do cinto; armei-lhe o gatilho... benzi-me, e encostei no ouvido o cano, grosso e frio, carregado de bala...
– Ah, patrício! Deus existe!...
No refilão daquele tormento, olhei para diante e vi... as Três-Marias luzindo na água... o cusco encarapitado na pedra, ao meu lado, estava me lambendo a mão... e logo, logo, o zaino relinchou lá em cima, na barranca do riacho, ao mesmíssimo tempo que a cantoria alegre de um grilo retinia ali perto, num oco de pau!...
– Patrício! Não me avexo duma heresia; mas era Deus que estava no luzimento daquelas estrelas, era ele que mandava aqueles bichos brutos arredarem de mim a má tenção...
O cachorrinho tão fiel lembrou-me a amizade da minha gente; o meu cavalo lembrou-me a liberdade, o trabalho, e aquele grilo cantador trouxe a esperança...
Eh-pucha! Patrício, eu sou mui rude... a gente vê caras, não vê corações...; pois o meu, dentro do peito, naquela hora, estava como um espinilho ao sol, num descampado, no pino do meio-dia: era luz de Deus por todos os lados!...
E já todo no meu sossego de homem, meti a pistola no cinto. Fechei um baio, bati o isqueiro e comecei a pitar.
E fui pensando. Tinha, por minha culpa, exclusivamente por minha culpa, tinha perdido as trezentas onças, uma fortuna para mim. Não sabia como explicar o sucedido, comigo, acostumado a bem cuidar das cousas. Agora... era vender o campito, a ponta de gado manso – tirando umas leiteiras para as crianças e a junta dos jaguanés lavradores – vender a tropilha dos colorados... e pronto! Isso havia de chegar, folgado; e caso mermasse a conta... enfim, havia de ver o jeito a dar... Porém matar-se um homem, assim no mais... e chefe de família... isso, não!
E d’espacito vim subindo a barranca; assim que me sentiu o zaino escarceou, mastigando o freio.
Desmaneei-o, apresilhei o cabresto; o pingo agarrou a volta e eu montei, aliviado.
O cusco escaramuçou, contente; a trote e galope voltei para a estância.
Ao dobrar a esquina do cercado enxerguei luz na casa; a cachorrada saiu logo, acuando. O zaino relinchou alegremente, sentindo os companheiros; do potreiro outros relinchos vieram.
Apeei-me no galpão, arrumei as garras e soltei o pingo, que se rebolcou, com ganas.
Então fui para dentro: na porta dei o – Louvado seja Jesu-Cristo; boa noite! – e entrei, e comigo, rente o cusco. Na sala do estancieiro havia uns quatro paisanos; era a comitiva que chegava quando eu saía; corria o amargo.
Em cima da mesa a chaleira, e ao lado dela, enroscada, como uma jararaca na ressolana, estava a minha guaiaca, barriguda, por certo com as trezentas onças, dentro.
– Louvado seja Jesu-Cristo, patrício! Boa noite! Entonces, que tal lhe foi de susto?...
E houve uma risada grande de gente boa.
Eu também fiquei-me rindo, olhando para a guaiaca e para o guaipeva, arrolhadito aos meus pés...
Simões Lopes Neto
 
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