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27/11/2014

Parceria - Cinthia Freire

Olá amados Leitores, venho apresentar para vocês mais uma parceria excelente que o blog acaba de concretizar. A autora de hoje é Arquiteta, mora em São Paulo e adora falar e Um Novo Amanhecer ou melhor de UNA! Tenho a honra de apresentar nossa parceira/escritora Cinthia Freire, apaixonada por histórias e ama um romance. Você conhece-a? Conhece sua obra? Então vamos saber mais.


Cinthia Freire
Cinthia Freire de 36 anos nasceu em São Paulo, onde mora com o marido e duas filhas. Formou-se em Arquitetura, mas a paixão por historias acabou a conquistando de vez. Desde então resolveu se dedicar em tempo integral a escrever romances, seu estilo preferido.


 Links de redes sociais:








É a magia do primeiro amor contada de uma maneira surpreendente! Uma história emocionante, um romance surpreendente, um final inesquecível. Uma linda história de amor, esperança, sacrifício
Qual o poder do verdadeiro amor? Ainda não conhece #UNA?


Um Novo Amanhecer
Título: Um Novo Amanhecer
Autor: Cinthia Freire
Gênero: Romance
Assunto: romance, fantasia, drama
Editora: Talentos da Literatura Brasileira
Idioma: Português
Ano de Lançamento: 2014
Número de páginas: 376
Público-alvo: Juvenil
Sinopse: Giulia está arrasada! Seu namoro chegou ao fim e ela não sabe o que fazer. Leo está confuso e com medo, seu tempo está acabando e ele não quer magoar sua namorada. Zyon é um anjo perdido e apesar de saber que está em uma missão na Terra, ele não tem idéia exatamente do que o aguarda. Em uma tarde chuvosa o caminho dos três se cruzam de forma trágica e comovente. UMA GAROTA APAIXONADA UM RAPAZ DOENTE UM ANJO PERDIDO Eles serão capazes de lidar com a força do verdadeiro amor?


Ficou curioso? Clique aqui para ler um pouquinho do livro.



Onde Encontrar: 

Instagram: @umnovoamanhecerlivro




Opinião de Leitores:

Litha (Skoob)
“O que falar sobre esse livro?! Que ele é lindo... Romântico, com uma temática que está em alta hoje em dia, mas tem um diferencial! .... Eu tive a oportunidade e a honra de ler esse livro. Enquanto fui lendo achei tão natural, tão real, tão comovente.. Apaixonante!!”

Eliane Sobreiro (Skoob) 
“Estou encantada com su livro, um novo amanhecer, vai ser grande um sucesso..”


Dri (Skoob) 
“Uma linda história sobre amor, sacrifício e luta. Fiquei pensando em como escrever a minha opinião sem dar spoilers porque é muito difícil falar dessa história de maneira vaga. Então decidi dizer o que senti em vez de fazer uma resenha elaborada. A primeira coisa que me veio à mente quando terminei de ler foi de onde a autora tirou tanta sensibilidade ! Bem, deve ser por isso que ela é a escritora e eu a leitora. Como muitos já sabem, o livro é voltado para o público juvenil porém, é uma história linda sobre o amor profundo, sacrifício, pesar, angústia, luta e sobrevivência que envolve não somente duas pessoas, mas duas famílias, amigos e um anjo!”


Tatha (Submarino)
“Muitooooo bommm um romance lindo, envolvente que te prende do inicio ao fim!”


Gisa (Skoob)
“UNA é único e nada que tenha sido escrito antes, ou seja escrito a partir de agora, chegará a primeira página desse livro. Cínthia, sua cruel que me fez desidratar, eu sou sua fã incondicional. Parabéns por essa estreia brilhante e que venham os próximos. Posso ler até sua lista do supermercado se você quiser. E para terminar, eu indico esse livro a todos. Esse livro que dói, machuca, mas nos salva e coloca alguma esperança na nossa vida.”


Fique por dentro das novidades, direto da Fan Page do livro clicando AQUI
Observação importante que a Cinthia sempre fala para seus fãs prepararem os lenços, gente! :o


Alguém aqui está curioso para saber mais sobre o livro? A academia está bastante animada para começar a leitura. Logo mais aparece aqui uma Resenha para lhe deixar com gostinho de Quero Mais! Aliás, Cinthia, muito obrigada pela confiança depositada! Essa parceria tem tudo pra dar certo. 


Trecho:




Leia Mais ►

26/11/2014

A Dívida


I

Montenegro e Veloso formaram-se no mesmo dia, na Faculdade de Direito de São Paulo. Depois da cerimônia da colação do grau, foram ambos enterrar a vida acadêmica num restaurante, em companhia de outros colegas, e era noite fechada quando se recolheram ao quarto que, havia dois anos, ocupavam juntos em casa de umas velhotas na Rua de São José. Aí se entregaram à recordação da sua vida escolástica, e se enterneceram defronte um do outro, vendo aproximar-se a hora em que deviam separar-se, talvez para sempre. Montenegro era de Santa Catarina e Veloso do Rio de Janeiro; no dia seguinte aquele partiria para Santos e este para a capital do Império. As malas estavam feitas.
- Talvez ainda nos encontremos, disse Montenegro. O mundo dá tantas voltas!
- Não creio, respondeu Veloso. Vais para a tua província, casas-te, e era uma vez o Montenegro.
- Caso-me?! Aí vens tu! Bem conheces as minhas idéias a respeito do casamento, idéias que são, aliás, as mesmas que tu professas. Afianço-te que hei de morrer solteiro.
- Isso dizem todos...
- Veloso, tu conheces-me há muito tempo: já deves estar farto de saber que eu quando digo, digo.
- Pois sim, mas há de ser difícil que em Santa Catarina te possas livrar do conjugo vobis. Na província ninguém toma a sério um advogado solteiro.
- Enganas-te. Os médicos, sim; os médicos é que devem ser casados.
- Não me engano tal. Na província o homem solteiro, seja qual for a posição que ocupe, só é bem recebido nas casas em que haja moças casadeiras.
- Quem te meteu essa caraminhola na cabeça?
- Se fosses, como eu, para a Corte, acredito que nunca te casasses; mas vais para o Desterro: aqui estás com uma ninhada de filhos. Queres fazer uma aposta?
- Como assim?
- O primeiro de nós que se casar pagará ao outro... Quanto?
- Vê tu lá.
- Deve ser uma quantia gorda.
- Um conto de réis.
- Upa! Um conto de réis não é dinheiro. É preciso que a aposta seja de vinte contos, pelo menos.
- Ó Veloso, tu estás doido? Onde vamos nós arranjar vinte contos de réis?
- O diabo nos leve se aqueles canudos não nos enriquecerem
- Está dito! Aceito! Mas olha que é sério!
- Muito sério. Vai preparando papel e tinta enquanto vou comprar duas estampilhas.
- Sim, senhor! Quero o preto no branco! Há de ser uma obrigação recíproca, passada com todos os efes e erres!
Veloso saiu e logo voltou com as estampilhas.
- Senta-te e escreve o que te vou ditar.
Montenegro sentou-se, tomou a pena, mergulhou-a no tinteiro, e disse:
- Pronto.
Eis o que o outro ditou e ele escreveu:
"Devo ao Bacharel Jaime Veloso a quantia de vinte contos de réis, que lhe pagarei no dia do meu casamento, oferecendo como fiança desse pagamento, além da presente declaração, a minha palavra de honra."
- Agora eu! disse Veloso, sentando-se:
"Devo ao Bacharel Gustavo Montenegro a quantia de vinte contos de réis... etc."
As declarações foram estampilhadas, datadas e assinadas, ficando cada um com a sua.
No dia seguinte Montenegro embarcava em Santos e seguia para o Sul, enquanto Veloso, arrebatado pelo trem de ferro, se aproximava da Corte.

II

Montenegro ficou apenas três anos em Santa Catarina, que lhe pareceu um campo demasiado estreito para as suas aspirações: foi também para a Corte, onde o Conselheiro Brito, velho e conhecido advogado, amigo da família dele, paternalmente se ofereceu para encaminhá-lo, oferecendo-lhe um lugar no seu escritório.
Chegado ao Rio de Janeiro, o catarinense desde logo procurou o seu companheiro de estudos, e não encontrou da parte deste o afetuoso acolhimento que esperava. Veloso estava outro: em três anos transformara-se completamente. Montenegro veio achá-lo satisfeito e feliz, com muitas relações no comércio, encarregado de causas importantes, morando numa bela casa, freqüentando a alta sociedade, gastando à larga.
O catarinense, que tinha uma alma grande, sinceramente estimou que a sorte com tanta liberalidade houvesse favorecido o seu amigo; ficou, porém, deveras magoado pela maneira fria e pelo mal disfarçado ar de proteção com que foi recebido.
Veloso não se demorou muito em falar-lhe da aposta de São Paulo.
- Olha que aquilo está de pé!
- Certamente. A nossa palavra de honra está empenhada.
- Se te casas, não te perdôo a dívida.
- Nem eu a ti.
Os dois bacharéis separaram-se friamente. Veloso não pagou a visita a Montenegro, e Montenegro nunca mais visitou Veloso. Encontravam-se às vezes, fortuitamente, na rua, nos bondes, nos tribunais, nos teatros, e Veloso perguntava infalivelmente a Montenegro:
- Então? ainda não és noivo?
- Não.
- Que diabo! estou morto por entrar naqueles vinte contos...

III

Um dia, Montenegro foi convidado para jantar em casa do Conselheiro Brito. Não podia faltar, porque fazia anos o seu venerando protetor, mestre e amigo. Lá foi, e encontrou a casa cheia de gente.
Passeando os olhos pelas pessoas que se achavam na sala, causou-lhe rápida e
agradabilíssima impressão uma bonita moça que, pela elegância do vestuário e pela vivacidade da fisionomia, se destacava num grupo de senhoras.
Era a primeira vez que Montenegro descobria no mundo real um físico de mulher
correspondendo pouco mais ou menos ao ideal que formara.
Não há mulher, por mais inexperiente, a quem escapem os olhares interessados de um homem. A moça imediatamente percebeu a impressão que produzira, e, ou fosse que por seu turno simpatizasse com Montenegro, ou fosse pelo desejo vaidoso de transformar em labareda a fagulha que faiscaram seus olhos, o caso é que se deixou vencer pela insistência com que o bacharel a encarava, e esboçou um desses indefiníveis sorrisos que nas batalhas do amor eqüivalem a uma capitulação. O acordo tácito e imprevisto daquelas duas simpatias foi celebrado com tanta rapidez, que Montenegro, completamente hóspede na arte de namorar, chegou a perguntar a si mesmo se não era tudo aquilo o efeito de uma alucinação.
O namoro foi interrompido pela esposa do Conselheiro Brito, que entrou na sala e cortou o fio a todas as conversas, dizendo:
- Vamos jantar.
À mesa, por uma coincidência que não qualificarei de notável, colocaram Montenegro ao lado da moça.
Escusado é dizer que ainda não tinham acabado a sopa, e já os dois namorados conversavam um com o outro como se de muito se conhecessem. Na altura do assado, Montenegro acabava de ouvir a autobiografia, desenvolvida e completa, da sua fascinadora vizinha.
Chamava-se Laurentina, mas todas as pessoas do seu conhecimento a tratavam por Lalá, gracioso diminutivo com que desde pequenina lhe haviam desfigurado o nome. Era órfã de pai e mãe. Vivia com uma irmã de seu pai, senhora bastante idosa e bastante magra, que estava sentada do outro lado da mesa, cravando na sobrinha uns olhares penetrantes indagadores. Os pais não lhe deixaram absolutamente nada, além da esmeradíssima educação que lhe deram; mas a tia, que generosamente a acolheu em sua casa, tinha, graças a Deus, alguma coisa, pouca, o necessário para viverem ambas sem recorrer ao auxilio de estranhos nem de parentes. Para não ser muito pesada à tia, Lalá ganhava algum dinheiro dando lições de piano e canto em casas particulares; eram os seus alfinetes.
- Fui educada um pouco à americana, acrescentou; saio sozinha à rua sem receio de que me faltem ao respeito, e sou o homem lá de casa. Quando é preciso, vou eu mesma tratar dos negócios de minha tia.
E elevando a voz:
- Não é assim, titia?
- É, minha filha, respondeu do lado oposto a velha, embora sem saber de que se tratava.
Lalá era suficientemente instruída, e tinha algum espírito mais que o comum das senhoras brasileiras. Essas qualidades, realmente apreciáveis, tomaram proporções exageradas na imaginação de Montenegro.
Este disse também a Lalá quem era, e contou-lhe os fatos mais interessantes da sua vida, exceção feita, já se sabe, da famosa aposta de São Paulo.
E tão entretidos estavam Montenegro e Lalá nas mútuas confidências que cada vez mais os prendiam, que nenhuma atenção prestaram aos incidentes da mesa, inclusive os brindes, que não foram poucos.
Acabado de jantar, improvisou-se um concerto e depois dançou-se. Lalá cantou um romance de Tosti. Cantou mal, com pouca voz, sem nenhuma expressão, e a Montenegro pareceu aquilo o non plus ultra da cantoria. Dançou com ela uma valsa, e durante a dança apertaram-se as mãos com uma força equivalente a um pacto solene de amor e fidelidade.
Ele sentia-se absolutamente apaixonado quando, de madrugada, se encaminhou para casa, depois de fechar a portinhola do carro e magoar os dedos da moça num último aperto de mão.
Era dia claro quando o bacharel conseguiu adormecer. Sonhou que era quase marido. Estava na igreja, de braço dado a Lalá, deslumbrante nas suas vestes de noiva. Mas ao subir com ela os degraus do altar, reconheceu na figura do sacerdote, que os esperava de braços erguidos, o seu colega Veloso, credor de vinte contos de réis.

IV

Nesse mesmo dia Montenegro estava sozinho no escritório, e trabalhava, quando entrou o Conselheiro Brito.
- Bom dia, Gustavo.
- Bom dia, conselheiro.
O velho advogado sentou-se e pôs-se a desfolhar distraidamente uns autos; mas, passados alguns minutos, disse muito naturalmente, sem levantar os olhos:
- Gustavo, aquilo não te serve.
- Aquilo quê?
- Faze-te de novas! A Lalá.
- Mas...
- Não negues. Toda a gente viu. Vocês estiveram escandalosos. Se tens em alguma conta os meus conselhos, arrepia carreira enquanto é tempo. Tu conhece-la?
- Não, senhor; mas encontrei-a em sua casa, e tanto bastou para formar dela o melhor conceito.
-Lá por isso, não, meu rapaz! Eu não fumo, mas não me importa que fumem perto de mim.
- Então ela...?
- Não digo que seja uma mulher perdida, mas recebeu uma educação muito livre, saracoteia sozinha por toda a cidade e não tem podido, por conseguinte, escapar à implacável maledicência dos fluminenses. Demais, está habituada ao luxo, ao luxo da rua, que é o mais caro; em casa arranjam-se ela e a tia sabe Deus como. Não é mulher com quem a gente se case. Depois, lembra-te que apenas começas e não tens ainda onde cair morto. Enfim, és um homem: faze o que bem te parecer.
Essas palavras, proferidas com uma franqueza por tantos motivos autorizada, calaram no ânimo do bacharel. Intimamente ele estimava que o velho amigo de seu pai o dissuadisse de requestar a moça, - não pelas conseqüências morais do casamento, mas pela obrigação, que este lhe impunha, de satisfazer uma dívida de vinte contos de réis, quando, apesar de todos os seus esforços, não conseguira até então pôr de parte nem o terço daquela quantia.
Mas o amor contrariado cresce com inaudita violência. Por mais conselhos que pedisse à razão, por mais que procurasse iludir-se a si próprio, Montenegro não conseguia libertar-se da impressão que lhe causara a moça. O seu coração estava inteiramente subjugado. Ainda assim, lograria, talvez, vencer-se, se, vinte dias depois do seu encontro com Lalá, esta não lhe escrevesse um bilhete que neutralizou todos os seus elementos de reação.
"Doutor. - Sinto que o nosso romance o enfastiasse tanto, que o senhor não quisesse ir além do primeiro capítulo. Entretanto, não imagina como sofro por não saber os motivos que atuaram no seu espírito para interromper tão bruscamente... a leitura. Diga-me alguma coisa, dê-me uma explicação que me tranqüilize ou me desengane. Esta incerteza mata-me. Escreva-me sem receio, porque só eu abro as minhas cartas. - Lalá."
A primeira idéia de Montenegro foi deixar a carta sem resposta, e empregar todos os meios e modos para esquecer-se da moça e fazer-se esquecer por ela; refletiu, porém, que não poderia justificar o seu procedimento, se recusasse a explicação com tanta delicadeza solicitada. Resolveu, portanto, responder a Lalá com um desengano categórico e formal, e mandou-lhe esta pílula dourada:
"Lalá. - Deus sabe quanto eu a amo e que sacrifício me imponho para renunciar à ventura e à glória de pertencer-lhe; mas um motivo imperioso existe, que se opõe inexoravelmente á nossa união. Não me pergunte que motivo é esse; se eu lho revelasse, a senhora achar-me-ia ridículo. Basta dizer-lhe que a objeção não parte de nenhuma circunstância a que esteja ligada a sua pessoa; parte de mim mesmo, ou antes, da minha pobreza. Adeus, Lalá; creia que, ao escrever-lhe estas linhas, sinto a pena pesada como se estivessem fundidos nela todos os meus tormentos. - G. M."
- Que conselho me dá vossemecê? perguntou Lalá à sua tia, depois de ler para ela ouvir a carta de Montenegro.
- O conselho que te dou é tratares de arranjar quanto antes uma entrevista com esse moço, e entenderes-te verbalmente com ele. Isto de cartas não vale nada. Ele que te diga francamente qual é o tal motivo... e talvez possamos remover todas as dificuldades. Não percas esse marido, minha filha. O Doutor Montenegro é um advogado de muito futuro; pode fazer a tua felicidade.
No dia seguinte Montenegro recebeu as seguintes linhas:
"Amanhã, quinta-feira, às duas horas da tarde, tomarei um bonde no Largo da Lapa, porque vou dar uma lição na Rua do Senador Vergueiro. Esteja ali por acaso, e por acaso tome o mesmo bonde que eu e sente-se ao pé de mim. Recebi a sua carta; é preciso que nos entendamos de viva voz. - Lalá."
O tom desse bilhete desagradou a Montenegro. Quem o lesse diria ter sido escrito por uma senhora habituada a marcar entrevistas. Entretanto, à hora aprazada o bacharel achou-se no Largo da Lapa. Recuar seria mostrar uma pusilanimidade moral, que o envergonharia eternamente. Depois, como ele possuía todas as fraquezas do namorado, deixou-se seduzir pela provável delícia dessa viagem de bonde. Quando o veículo parou no Largo do Machado, Lalá sabia já qual o motivo pecuniário que se opunha ao casamento. Ouvira sem pestanejar a confissão de Montenegro.
- O motivo é grave, disse ela; o Doutor Veloso tem a sua palavra de honra, e o senhor não pode mudar de estado sem dispor de uma soma relativamente considerável; mas... eu sou mulher e talvez consiga...
- O quê? perguntou Montenegro sobressaltado.
- Descanse. Sou incapaz de cometer qualquer ação que nos fique mal. Separemo-nos aqui. Eu lhe escreverei.
Lalá estendeu a mão enluvada que Montenegro apertou, desta vez sem lhe magoar os dedos.
Ele apeou-se e galgou o estribo de outro bonde que partia para a cidade.
- Já está pago, disse o condutor a Montenegro quando este lhe quis dar um níquel.
O bacharel voltou-se para verificar quem tinha pago por ele, e deu com os olhos em Veloso, que lhe disse de longe, rindo-se:
- Foi por conta daqueles vinte, sabes?
- Reza-lhes por alma! bradou Montenegro, rindo-se também.

V

Esse "reza-lhes por alma" queria dizer que Montenegro voltara desencantado do seu passeio de bonde. Lalá parecera-lhe outra, mais desenvolta, mais americana, completamente despida do melindroso recato que é o mais precioso requisito da mulher virgem. Ele deixou-se convencer de que a moça, depois de ouvir a exposição franca e leal das suas condições de insolvabilidade, desistira mentalmente de considerá-lo um noivo possível, dizendo por dizer aquelas palavras "talvez eu consiga", palavras à-toa, trazidas ali apenas para fornecer o ponto final a um diálogo que se ia tornando penoso e ridículo.
Montenegro fez ciente do seu desencanto ao Conselheiro Brito, que lhe deu parabéns, e daí por diante só se lembrou de Lalá como de uma bonita mulher de quem faria com muito prazer sua amante mas nunca sua esposa. Desaparecera completamente aquele doce enlevo causado pela primeira impressão. O "reza-lhes por alma" saiu-lhe dos lábios com a impetuosidade de um grito da consciência. A desilusão foi tão pronta como pronto havia sido o encanto. Fogo de palha.

VI

Entretanto, mal sabia Montenegro que Lalá concebera um plano extravagante e o punha em prática enquanto ele, tranqüilo e despreocupado, imaginava que ela o houvesse posto à margem. Depois de aconselhar-se com a tia, que não primava pelo bom senso, a professora de piano e canto encheu-se de decisão e coragem, foi ter com o Doutor Veloso no seu escritório e disse-lhe que desejava dar-lhe duas palavras em particular.
A beleza de Lalá deslumbrou o advogado, e, como este era extremamente vaidoso, viu logo ali uma conquista amorosa em perspectiva.
- Tenha a bondade de entrar neste gabinete, minha senhora.
Lalá entrou, sentou-se num divã, e contou ao Doutor Veloso toda a sua vida, repetindo, palavra por palavra, o que dissera a Montenegro durante o jantar do Conselheiro Brito.
Admirado de tanta loquacidade e de tanto espírito, Veloso perguntou-lhe, terminada a história, em que poderia servi-la.
- Sou amada por um homem que é digno de mim, e o nosso casamento depende
exclusivamente do doutor.
- De mim?
- A minha ventura está nas suas mãos. Custa-lhe apenas vinte contos de réis. Não quero crer que o doutor se negue a pagar por essa miserável quantia a felicidade... de uma órfã.
- Não compreendo.
- Compreenderá quando eu lhe disser que o homem por quem sou amada é o seu amigo e colega Doutor Gustavo Montenegro.
- Ah! ah!...
- Escusado é dizer que ele ignora absolutamente a resolução, que tomei, de vir falar-lhe.
- Acredito.
- Qual é a sua resposta?
- Minha senhora, balbuciou Veloso, sorrindo; eu tenho algum dinheiro, tenho.. . mas perder assim vinte contos de réis...
- Recusa?
- Não, não recuso; mas peço algum tempo para refletir. Depois de amanhã venha buscar a resposta.
A conversação continuou por algum tempo, e Veloso começou a sentir pela moça a
mesmíssima impressão que ela causara a Montenegro.
Lalá notou o efeito que produzia, e pôs em distribuição todos os seus diabólicos artifícios de mulher astuta e avisada.
- Feliz Gustavo!
- Feliz... por quê?
- É amado!
- Oh! não vá agora supor que ele me inspirasse uma paixão desenfreada!
- Ah!
- É um marido que me convém, isso é; mas se o doutor não abrir mão da dívida, e ele não se puder casar, não creia que eu me suicide!
Ouvindo esta frase, Veloso adiantou-se tanto, tanto, que, dois dias depois, quando Lalá foi saber a resposta, ele recebeu-a com estas palavras:
- Não!... Se eu abrisse mão dos vinte contos, ele seria seu marido, e...
- E...?
- E eu... tenho ciúmes.
No dia seguinte ele era apresentado à tia, manejo aconselhado pela própria velha.
- Este é mais rico, mais bonito e até mais inteligente que o outro... Não o deixes escapar, minha filha!
A verdade é que Veloso não se introduziu em casa de Lalá com boas intenções; mas a esperteza da moça e as indiscrições do advogado determinaram em breve uma situação de que ele não pôde recuar.
Imagine-se a surpresa de Montenegro quando lhe anunciaram o casamento de Lalá com o seu colega, e a indignação que dele se apoderou quando por portas travessas veio ao conhecimento do modo singular por que fora ajustado esse consórcio imprevisto.

VII

No dia seguinte ao do casamento, estava Montenegro no escritório, quando recebeu um cheque de vinte contos de réis, enviado pelo marido de Lalá.
- Não acha que devo devolver este dinheiro? perguntou ele ao Conselheiro Guedes.
- Não; mas não o gastes; afianço-te que terás ocasião mais oportuna para devolvê-lo.
E assim foi.
A lua-de-mel não durou dois meses. Os dois esposos desavieram-se e logo se separaram judicialmente. Ele voltou à vida de solteiro e ela tornou para casa da tia.
Um dia Montenegro encontrou-a num armarinho da Rua do Ouvidor, e tais coisas lhe disse a moça, tais protestos fez e tão arrependida se mostrou de o haver trocado pelo outro, que dois dias depois ela entrava furtivamente em casa dele.
Nesse mesmo dia o desleal Veloso recebeu uma cartinha concebida nos seguintes termos:
"Doutor Veloso. - Devolvo-lhe intacto o incluso cheque de vinte contos de réis, porque a dívida que ele representa é uma estudantada imoral, sem nenhum valor jurídico. – Gustavo Montenegro."

Artur Azevedo


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25/11/2014

EVENTO: 6° Encontro de Leitores da Editora Seguinte

Olá, leitores da Academia!
Hoje tem divulgação de evento!



O que é?

Participe do 6ºencontro de leitores da Editora Seguinte! Venha conversar sobre o livro “Cartas de amor aos mortos”, participar de atividades especiais e concorrer a brindes exclusivos, inclusive um exemplar autografado pela Ava Dellaira. Saiba mais também sobre os próximos lançamentos da Editora Seguinte.

Quando?

Dia 30 de Novembro (Domingo), às 15:00

Onde?

Livraria Cultura - CasaPark Shopping Center


Link do evento: aqui.

Quem vamos? A Academia Literária DF vai marcar presença!

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20/11/2014

ENTREVISTA: Rodrigo Mendes

Olá,  amados leitores da Academia!
Hoje trazemos para vocês a entrevista que fizemos com o nosso autor parceiro Rodrigo Mendes, autor de O Incendiário. Vamos saber mais um pouco sobre sua vida pessoal e sua carreira como escritor.

Academia: Primeiramente, gostaríamos de agradecer sua atenção. Em suas palavras, quem é Rodrigo Mendes?
Rodrigo: Rodrigo Mendes é um jovem escritor que quer escrever muitos outros livros e continuar nessa trajetória custe o que custar.


Academia: O que te levou a trilhar o caminho da literatura?
RodrigoDesde criança eu gostava de ler, e escrevia pequenas histórias nos cadernos e em folhas, mas não mostrava para ninguém e com o passar do tempo, eu comecei a ler muito e decidi escrever  o meu próprio livro.


Academia: Quais suas ambições e seus sonhos como escritor?
Rodrigo: Quero escrever a minha saga toda e mais alguns tipos de livros, quero lançar todos e ter muitos leitores que falem comigo e deem feddbaks, acho que o maior sonho de qualquer escritor é ter um número bom de vendas e leitores fieis a suas obras.


Academia: Como escritor estreante, jovem e independente, quais foram as maiores dificuldades que você teve que enfrentar para atingir sua meta de publicar sua obra?
Rodrigo: Primeiro depois que terminei meu livro, foi buscar uma editora que topasse publicar um livro de um escritor estreante, várias tem preconceito e não apostam em quem está começando, por ser um caminho difícil para trilhar.


Academia: Como foi o processo de criação do livro? Algum trecho mais complicado? De onde você tira inspiração para criar?
Rodrigo: Demorei cerca de onze meses para escrever o livro, o livro todo dá trabalho, por que escrever não é uma tarefa fácil, vários trechos tem que se encaixar, se interligar e minhas inspirações são de outros livros que escrevi anteriormente e aproveito uma ideia que eu tive e a modifico para melhor aproveitá-la em um livro.


Academia: Seu livro de estreia, “O Incendiário”, é o primeiro livro de uma saga de 5. O que os fãs
podem esperar dos próximos livros?
Rodrigo: Podem esperar muitas aventuras, muitas descobertas, por que O Incendiário foi apenas a primeira fagulha no palheiro, muita coisa ainda tem que ser revelada e muita confusão ainda está por vir.


Academia: Como está sendo a experiência da publicação e divulgação da sua obra? Qual está sendo o retorno dos leitores?
Rodrigo: Eu sempre divulgo meu livro para as pessoas, uso minha página para publicar trechos da obra, o retorno que eu tive das pessoas que leram foi ótimo, muitas pessoas elogiaram, gostaram da história e querem logo o segundo livro.


Academia: Quais as suas impressões sobre o mercado editorial no Brasil?
Rodrigo: O mercado editorial visa o lucro, por que são uma empresa em primeiro lugar, e depois os livros que mais lançam são os que fazem maior sucesso, pois necessitam de vendas e da alta demanda, mas os escritores brasileiros estão ganhando espaço no mercado editorial e assim conquistando leitores, por que os livros mais vendidos são do exterior, e tenho esperança que isso um dia mude e a literatura brasileira venha se destacar no Brasil a frente dos livros estrangeiros.


Academia: Como é o Rodrigo leitor? Quais seus gêneros preferidos? E autores? Tem algum ídolo?
Rodrigo: Gosto muito de ler literatura fantástica e livro de mistério com suspense e um pouco de terror, Tenho alguns autores preferidos que são Joe Hill, Carlos Ruiz Zafon e Pittacus Lore.


Academia: Para finalizar, gostaríamos de agradecer pela parceria e colaboração com a Academia. Deseja deixar um recado para os aspirantes a escritores? E para seus leitores?
Rodrigo: Eu que agradeço pela oportunidade, o meu recado é que não desistam de seus sonhos e nunca deixem de escrever a suas histórias, e para meus leitores eu falo muito obrigado e que continuem me acompanhando e falem do meu livro para os amigos, por que é dos meus leitores que eu ganho mais leitores.


Obrigado, Rodrigo! A Academia Literária DF agradece sua participação, atenção e carinho dedicados a essa parceria. Sucesso em sua carreira!
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19/11/2014

Adão e Eva


    Uma senhora de engenho, na Bahia, pelos anos de mil setecentos e tantos, tendo algumas pessoas íntimas à mesa, anunciou a um dos convivas, grande lambareiro, um certo doce particular. Ele quis logo saber o que era; a dona da casa chamou-lhe curioso. Não foi preciso mais; daí a pouco estavam todos discutindo a curiosidade, se era masculina ou feminina, e se a responsabilidade da perda do paraíso devia caber a Eva ou a Adão. As senhoras diziam que a Adão, os homens que a Eva, menos o juiz-de-fora, que não dizia nada, e Frei Bento, carmelita, que interrogado pela dona da casa, D. Leonor:
    -Eu, senhora minha, toco viola, respondeu sorrindo; e não mentia, porque era insigne na viola e na harpa, não menos que na teologia.
    Consultado, o juiz-de-fora respondeu que não havia matéria para opinião; porque as cousas no paraíso terrestre passaram-se de modo diferente do que está contado no primeiro livro do Pentateuco, que é apócrifo. Espanto geral, riso do carmelita que conhecia o juiz-de-fora como um dos mais piedosos sujeitos da cidade, e sabia que era também jovial e inventivo, e até amigo da pulha, uma vez que fosse curial e delicada; nas cousas graves, era gravíssimo.
    -Frei Bento, disse-lhe D. Leonor, faça calar o Sr. Veloso.
    -Não o faço calar, acudiu o frade, porque sei que de sua boca há de sair tudo com boa significação.
    -Mas a Escritura... ia dizendo o mestre-de-campo João Barbosa.
    -Deixemos em paz a Escritura, interrompeu o carmelita. Naturalmente, o Sr. Veloso conhece outros livros...
    -Conheço o autêntico, insistiu o juiz-de-fora, recebendo o prato de doce que D. Leonor lhe oferecia, e estou pronto a dizer o que sei, se não mandam o contrário.
    -Vá lá, diga.
    -Aqui está como as cousas se passaram. Em primeiro lugar, não foi Deus que criou o mundo, foi o Diabo...
    -Cruz! Exclamaram as senhoras.
    -Não diga esse nome, pediu D. Leonor.
    -Sim, parece que... ia intervindo frei Bento.
    -Seja o Tinhoso. Foi o Tinhoso que criou o mundo; mas Deus, que lhe leu no pensamento, deixou-lhe as mãos livres, cuidando somente de corrigir ou atenuar a obra, a fim de que ao próprio mal não ficasse a desesperança da salvação ou do benefício. E a ação divina mostrou-se logo porque, tendo o Tinhoso criado as trevas, Deus criou a luz, e assim se fez o primeiro dia. No segundo dia, em que foram criadas as águas, nasceram as tempestades e os furacões; mas as brisas da tarde baixaram do pensamento divino. No terceiro dia foi feita a terra, e brotaram dela os vegetais, mas só os vegetais sem fruto nem flor, os espinhosos, as ervas que matam como a cicuta; Deus, porém, criou as árvores frutíferas e os vegetais que nutrem ou encantam. E tendo o Tinhoso cavado abismos e cavernas na terra, Deus fez o sol, a lua e as estrelas; tal foi a obra do quarto dia. No quinto foram criados os animais da terra, da água e do ar. Chegamos ao sexto dia, e aqui peço que redobrem de atenção.
    Não era preciso pedi-lo; toda a mesa olhava para ele, curiosa.
    Veloso continuou dizendo que no sexto dia foi criado o homem, e logo depois a mulher; ambos belos, mas sem alma, que o Tinhoso não podia dar, e só com ruins instintos. Deus infundiu-lhes a alma, com um sopro, e com outro os sentimentos nobres, puros, e grandes. Nem parou nisso a misericórdia divina; fez brotar um jardim de delícias, e para ali os conduziu, investindo-os na posse de tudo. Um e outro caíram aos pés do Senhor, derramando lágrimas de gratidão. “Vivereis aqui”, disse-lhe o Senhor, “e comereis de todos os frutos, menos o desta árvore, que é a da ciência do Bem e do Mal.”
    Adão e Eva ouviram submissos; e ficando sós, olharam um para o outro, admirados; não pareciam os mesmos. Eva, antes que Deus lhe infundisse os bons sentimentos, cogitava de armar um laço a Adão, e Adão tinha ímpetos de espancá-la. Agora, porém, embebiam-se na contemplação um do outro, ou na vista da natureza, que era esplêndida. Nunca até então viram ares tão puros, nem águas tão frescas, nem flores tão lindas e cheirosas, nem o sol tinha para nenhuma outra parte as mesmas torrentes de claridade. E dando as mãos percorreram tudo, a rir muito, nos primeiros dias, porque até então não sabiam rir. Não tinham a sensação do tempo. Não sentiam o peso da ociosidade; viviam da contemplação. De tarde iam ver morrer o sol e nascer a lua, e contar as estrelas, e raramente chegavam a mil, dava-lhes o sono e dormiam como dous anjos.
    Naturalmente, o Tinhoso ficou danado quando soube do caso. Não podia ir ao paraíso, onde tudo lhe era avesso, nem chegaria a lutar com o Senhor; mas ouvindo um rumor no chão entre folhas secas, olhou e viu que era a serpente. Chamou-a alvoroçado.
    - Vem cá, serpe, fel rasteiro, peçonha das peçonhas, queres tu ser a embaixatriz de teu pai, para reaver as obras de teu pai?
    A serpente fez com a cauda um gesto vago, que parecia afirmativo; mas o Tinhoso deu-lhe a fala, e ela respondeu que sim, que iria onde ele a mandasse, - às estrelas, se lhe desse as asas da águia – ao mar, se lhe confiasse o segredo de respirar na água – ao fundo da terra, se lhe ensinasse o talento da formiga. E falava a maligna, falava à toa, sem parar, contente e pródiga da língua; mas o diabo interrompeu-a:
    - Nada disso, nem ao ar, nem ao mar, nem à terra, mas tão-somente ao jardim de delícias, onde estão vivendo Adão e Eva.
    - Adão e Eva?
    - Sim, Adão e Eva.
    - Duas belas criaturas que vimos andar há tempos, altas e direitas como palmeiras?
    - Justamente.
    - Oh! Detesto-os. Adão e Eva? Não, não, manda-me a outro lugar. Detesto-os! Só a vista deles faz-me padecer muito. Não hás de querer que lhes faça mal...
    - É justamente para isso.
    - Deveras? Então vou; farei tudo o que quiseres, meu senhor e pai. Anda, dize depressa o que queres que faça. Que morda o calcanhar de Eva? Morderei...
    -Não, interrompeu o Tinhoso. Quero justamente o contrário. Há no jardim uma árvore, que é a da ciência do Bem e do Mal; eles não devem tocar nela, nem comer-lhes os frutos. Vai, entra, enrosca-te na árvore, e quando um deles ali passar, chama-o de mansinho, tira uma fruta e oferece-lhe, dizendo que é a mais saborosa fruta do mundo; se te responder que não, tu insistirás, dizendo que é bastante comê-la para conhecer o próprio segredo da vida. Vai, vai...
    - Vou; mas não falarei a Adão, falarei a Eva. Vou, vou. Que é o próprio segredo da vida, não?
    - Sim, o próprio segredo da vida. Vai, serpe das minhas entranhas, flor do mal, e se te saíres bem, juro que terás a melhor parte na criação, que é a parte humana, porque terás muito calcanhar de Eva que morder, muito sangue de Adão em que deitar o vírus do mal... Vai, vai, não te esqueças...
    Esquecer? Já levava tudo de cor. Foi, penetrou no paraíso, rastejou até a árvore do Bem e do Mal, enroscou-se e esperou. Eva apareceu daí a pouco, caminhando sozinha, esbelta, com a segurança de uma rainha que sabe que ninguém lhe arrancará a coroa. A serpente, mordida de inveja, ia chamar a peçonha à língua, mas advertiu que estava ali às ordens do Tinhoso, e, com a voz de mel, chamou-a. Eva estremeceu.
    - Quem me chama?
    - Sou eu, estou comendo desta fruta...
    - Desgraçada, é a árvore do Bem e do Mal!
    - Justamente. Conheço agora tudo, a origem das coisas e o enigma da vida. Anda, come e terás um grande poder na terra.
    - Não, pérfida!
    - Néscia! Para que recusas o resplendor dos tempos? Escuta-me, faze o que te digo, e serás legião, fundarás cidades, e chamar-te-ás Cleópatra, Dido, Semíramis; darás heróis do teu ventre, e serás Cornélia; ouvirás a voz do céu, e serás Débora; cantarás e serás Safo. E um dia, se Deus quiser descer à terra, escolherá as tuas entranhas, e chamar-te-ás Maria de Nazaré. Que mais queres tu? Realeza, poesia, divindade, tudo trocas por uma estulta obediência. Nem será só isso. Toda a natureza te fará bela e mais bela. Cores das folhas verdes, cores do céu azul, vivas ou pálidas, cores da noite, hão de refletir nos teus olhos. A mesma noite, de porfia com o sol, virá brincar nos teus cabelos. Os filhos do teu seio tecerão para ti as melhores vestiduras, comporão os mais finos aromas, e as aves te darão as suas plumas, e a terra as suas flores, tudo, tudo, tudo...
    Eva escutava impassível; Adão chegou, ouviu-os e confirmou a resposta de Eva; nada valia a perda do paraíso, nem a ciência, nem o poder, nenhuma outra ilusão da terra. Dizendo isto, deram as mãos um ao outro, e deixaram a serpente, que saiu pressurosa para dar conta ao Tinhoso.
    Deus, que ouvira tudo, disse a Gabriel:
    - Vai, arcanjo meu, desce ao paraíso terrestre, onde vivem Adão e Eva, e traze-os para a eterna bem-aventurança, que mereceram pela repulsa às instigações do Tinhoso.
    - E logo o arcanjo, pondo na cabeça o elmo de diamante, que rutila como um milhar de sóis, rasgou instantaneamente os ares, chegou a Adão e Eva, e disse-lhes:
    - Salve, Adão e Eva. Vinde comigo para o paraíso, que merecestes pela repulsa às instigações do Tinhoso.
    Um e outro, atônitos e confusos, curvavam o colo em sinal de obediência; então Gabriel deu as mãos a ambos, e os três subiram até à estância eterna, onde miríades de anjos os esperavam, cantando:
    - Entrai, entrai. A terra que deixastes, fica entregue às obras do Tinhoso, aos animais ferozes e maléficos, às plantas daninhas e peçonhentas, ao ar impuro, à vida dos pântanos. Reinará nela a serpente que rasteja, babuja e morde, nenhuma criatura igual a vós porá entre tanta abominação a nota da esperança e da piedade.
    E foi assim que Adão e Eva entraram no céu, ao som de todas as cítaras, que uniam as suas notas em um hino aos dous egressos da criação...
    ... Tendo acabado de falar, o juiz-de-fora estendeu o prato a D. Leonor para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para os outros, embasbacados; em vez de explicação, ouviam uma narração enigmática, ou, pelo menos, sem sentido aparente. D. Leonor foi a primeira que falou:
    - Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente. Não foi isso que lhe pedimos, nem nada disso aconteceu, não é, frei Bento?
    - Lá o saberá o Sr. Juiz, respondeu o carmelita sorrindo.
    E o juiz-de-fora, levando à boca uma colher de doce:
    - Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas também, D. Leonor, se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na verdade, uma cousa primorosa. É ainda aquela sua antiga doceira de Itapagipe?
Machado de Assis

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17/11/2014

Projeto incentiva a leitura no Parque Três Meninas

Foto reprodução: Jornal de Brasília

Olá, leitores da Academia!
Todos sabem a importância da leitura e da diversão para a educação das crianças. Projetos que incentivam a literatura são muito bem-vindos e ficamos muito felizes em divulgar ações como está que vocês podem conferir na reportagem do Jornal de Brasília:


Projeto incentiva a leitura no Parque Três Meninas

Esta é a sexta edição do evento, que acontece em todo segundo domingo do mês no mesmo local


À sombra das árvores do recém-vitalizado Parque Três Meninas, os moradores de Samambaia aproveitaram o domingo com o Piquenique com Arte. Com leitura, pintura de rosto e atividades culturais, adultos e crianças se divertiram no evento organizado pelo Conselho Regional de Cultura de Samambaia. Esta é a sexta edição do evento, que acontece em todo segundo domingo do mês no mesmo local.
“A proposta é que as pessoas cheguem, sentem, aproveitem, saiam pelo parque, voltem. É livre. Pretendemos sensibilizar os moradores a frequentar o nosso parque”, revela Domício Chaves, conselheiro de cultura e poeta. “Nos unimos pela ocupação e preservação do parque”, explica.

Incentivo à leitura

Aos quatro anos, mesmo sem saberem ler, as pequenas Clarice e Juliana folheavam as folhas coloridas das obras. O pai, Demian Machado, 39, lia o conteúdo dos livros para as garotas, que também tiveram o rosto pintado.
“Mesmo sem contador, a gente pode pegar os livros e ler para elas. Quando souberam que viriam, se empolgaram. É importante esse tipo de evento na cidade”, acredita o empresário, que já esteve outras vezes no piquenique. 



O que acham da iniciativa, leitores? 

Fonte: Jornal de Brasília
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12/11/2014

O Vaso


    Oh! O lindo, o lindo vaso que Celina possuía! E com que carinho, com que meiguice tratava ela as flores daquele vaso, o mais belo de toda a aldeia!
    Levava-o a toda a parte: e, no seu ciúme, na sua avareza, não queria confiá-lo a ninguém, com medo de que mãos profanas estragassem as raras flores que nele viçavam. Ela mesma as regava, de manhã e à noite: ela mesma as catava cuidadosamente todos os dias, para que nenhum inseto as roesse ou lhes poluísse o acetinado das pétalas. E em toda a aldeia só se falava do vaso de Celina. Mas, a rapariga, cada vez mais ciosa do seu tesouro, escondia-o, furtava-o às vistas de todo o mundo. Oh! O lindo, o lindo vaso que Celina possuía!
    Certa vez (era por ocasião das colheitas), Celina acompanhou as outras raparigas ao campo. A manhã era esplêndida. O sol inundava de alegria e de luz a paisagem. E as raparigas iam cantando, cantando; e as aves nas árvores, gorjeando, e as águas do riacho nos seixos da estrada, murmurando, faziam coro com elas. E Celina levava escondido seu vaso. Não quisera deixá-lo em casa, exposto à cobiça de algum gatuno. E os rapazes diziam: “Aquela que ali vai é Celina, que possui o mais belo vaso da aldeia...”
    Por toda a manhã, por toda a tarde, a faina da colheita durou. E, quando a noite desceu, cantando e rindo as raparigas desfilaram, de volta à aldeia. Celina, sempre retraída, sempre afastada do convívio das outras, deixou-se ficar atrasada. E, sozinha, pela noite escura e fechada, veio trazendo o seu vaso precioso...
    Dizem na aldeia que aqueles caminhos são perigosos: há por ali, rondando nas trevas, gênios maus que fazem mal às raparigas...
    Não se sabe o que houve: sabe-se que Celina, chegando a casa, tinha os olhos cheios de lágrimas, e queixava-se, soluçando, de que haviam roubado as flores do seu vaso. E não houve consolação que lhe valesse, não houve carinho que lhe acalmasse o desespero. E os dias correram, e correram as semanas, e correram os meses, e Celina, desesperada, chorava e sofria: “Oh! As flores! As flores do meu vaso que me roubaram!...”
    Mas, no fim do nono mês, Celina consolou-se. Não tinha recuperado as flores perdidas... mas tinha nos braços um pimpolho. E o João das Dornas, um rapagão que era o terror dos pais e dos maridos, dizia à noite, na taverna, aos amigos, diante dos canecos de vinho:
    -Ninguém roubou as flores da rapariga, ó homens! Eu é que lhes fiz uma rega abundante, porque não admito flores que estejam toda a vida sem dar frutos...
 Olavo Bilac
 
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11/11/2014

Romances de cavalaria: as diferenças entre a ficção e a realidade




                Olá, queridos leitores.
                Quem não conhece ou não viu ainda os filmes “Coraçãode Dragão” ou “Coração de cavaleiro”? São dois exemplos clássicos cinematográficos de um gênero que nasceu nas páginas dos livros, ainda na Idade Média, conhecidos como Romance de Cavalaria. São histórias cujos protagonistas são cavaleiros e seus códigos de honra e senso de dever. Outra história muito famosa desse gênero, tanto nos livros quanto nas telas, é “Rei Arthur”.
                Mas, você conhece a origem dessas histórias? E as semelhanças e diferenças entre os personagens da ficção e os cavaleiros reais? Não? A repórter Aretha Yarak trouxe um pouco dos primórdios desse gênero para as páginas de uma edição especial da Revista Super Interessante.
                Confira abaixo a transcrição.

***

                Imagine a vida de um cavaleiro. Não um personagem histórico, mas o clichê da fantasia, dos filmes, jogos e desenhos animados. Você provavelmente aprendeu coisas como vagar pela terra sozinho, ajudando os fracos e oprimidos, seguindo o mais rígido código de honra, secretamente apaixonado por uma princesa que, quem sabe, seja preciso salvar de um dragão, que também guarda um tesouro.
                Na vida real, o dragão nem era a parte mais implausível: cavaleiros eram militares profissionais que lutavam em formações de centenas, e seu maior alvo eram fracos e oprimidos plebeus, armados geralmente com arcos. Na prática, seu código de honra era uma ligeira sugestão: estupros e pilhagens eram feitos pelos cavaleiros das ordens monásticas, que eram, para todos os fins, monges.
                A imagem popular do cavaleiro não vem da realidade, mas dos romances de cavalaria e das canções de gesta, gêneros em prosa e verso que se tornaram populares após a Primeira Cruzada. Eram livros cheios de ação e romance, feitos para divertir e inspirar, e não davam a mínima para o realismo. Como aconteceu como muitas outras lendas, ninguém avisou os autores que a Idade Média havia acabado, e o gênero seguiu firme e forte pelo século 18, quando “cavaleiro” já era quase só um título, sem qualquer papel militar. Foi só com a sátira impiedosa de Cervantes, autor de “Dom Quixote”, em 1600, que a ficha caiu e eles saíram de moda.
                A seguir, alguns dos personagens mais importantes nascidos da imaginação medieval. Tire as crianças da sala: diferente do estereótipo moderno, as relações entre cavaleiro e donzela frequentemente eram consumadas. Foi só em tempos recentes que adaptaram as lendas para gostos mais puritanos.


ORLANDO – França e outros países (1115-1516)
                Desde a Espanha até a Noruega, dezenas de livros foram escritos sobre o legendário paladino de Carlos Magno, morto em combate com os mouros na Batalha de Roncesvales, em 778. Orlando seria o dono de Durendal, a espada mais afiada do mundo, feita com um dente de São Pedro, o sangue de São Basílio, o cabelo de São Denis e um pedaço da roupa da Virgem Maria. Com ela, enfrentou o gigante islâmico Ferrabrás (ou Ferraguto) e forçou-o a se converter ao cristianismo. Também participou de torneios pela mão da princesa Angélica. Em sua batalha final, ele se recusa a chamar por reforços, até que, tarde demais, toca seu olifante – uma trombeta feita de marfim de elefante – com tanta força que estoura as veias da cabeça, morrendo sem combate.


AMADIS DE GAULA – Portugal (séc. 14)
                A autoria é portuguesa, com certeza, mas o personagem é estrangeiro. Filho de um rei da Gália e uma princesa da Bretanha, Amadis foi abandonado pelos pais e criado pela feiticeira Urganda. De volta ao reino, já adulto, enfrenta vários desafios, incluindo matar o gigante Endriago, coberto de escamas e cujo fedor é fatal. Com isso, consegue ser feito cavaleiro por seu próprio pai. Apaixonado pela princesa Oriana, da Inglaterra, fica louco após receber uma carta mal-educada da amada. Mais tarde, o casal consuma a relação, sexo antes do casamento – pelo qual ganha o ódio eterno do pai da ex-donzela. Amadis foge com Oriana e eles, tempos depois, se casam. Mas acaba morto por seu próprio filho, que vinga a “desonra” de ter nascido de mãe solteira.


SIR EGLAMOUR – Inglaterra (1350)
                Um cavaleiro pobre se apaixona pela filha de seu senhor, um barão feudal. O nobre diz que concorda com o casamento, desde que ele resolva três tarefas: primeiro, tirar um cervo de uma floresta tão distante que fica depois do paraíso celta, protegido por um gigante. Depois, matar um javali assassino que aterrorizava Sidon, no Líbano. Por fim, acabar com um dragão em Roma. Tudo isso ele resolve galantemente, mas, entre o javali e o dragão, já sem paciência, acaba deixando a princesa grávida. Mãe e filho são banidos do reino, e acabam separados quando um grifo rouba a criança. Depois de muitas reviravoltas, que levam décadas e incluem a mãe casar com o filho (felizmente, sem consumar a relação), todo mundo acaba junto, e o filho casa com uma princesa prometida ao pai.


FREDERIK DA NORMADIA – Suécia (1308)
                O duque Frederik era um dos cavaleiros do Rei Arthur. Um dia, ele sai para caçar e acaba perdido. Até que encontra o reino dos anões, dentro de uma montanha. O rei deles, Malmrit, enfrenta uma revolta, que o cavaleiro ajuda a controlar. Como prêmio, ele recebe um anel mágico, capaz de torná-lo invisível. As semelhanças com “O senhor dos anéis” acabam aqui: usando o anel, o cavaleiro consegue o acesso a uma torre do rei da Irlanda, onde ele mantinha presa sua filha, Floria. Os dois tem um romance – consumadíssimo – e, após mover mundos e fundos, ele consegue levar a princesa para a Normandia, com um navio cheio de tesouros. E são felizes para sempre.

***

                E então, o que acharam? Os primeiros heróis literários de cavalaria eram bem diferentes dos que aprendemos a gostar. É sempre interessante ver como as lendas e as ideias evoluem e como os livros refletem essas transformações graduais.
                Por hoje é isso, pessoal. Até a próxima!!!!



Referência do texto:
- YARAK, Aretha. Romances de Cavalaria: tudo a respeito do herói medieval nasceu com eles. Publicado em “Dossiê Super Interessante: Lendas Medievais”, edição 338-A, outubro de 2014. Páginas 14 e 15.

Crédito das imagens:
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10/11/2014

Parceria: Andross Editora




Olá, leitores da Academia!
Temos a honra e a felicidade de anunciar que firmamos uma parceria com a Andross Editora! Vamos conhecer um pouco sobre?

História

Em agosto de 2004, a Andross Editora nasceu no campus da Universidade Cruzeiro do Sul, em São Paulo, para abrir espaço no mercado editorial aos alunos que não tinham condições de publicar seus primeiros textos. Iniciou as atividades com obras acadêmicas, mas cresceu e se mantém no mercado graças a um modelo de negócio diferenciado: a publicação de antologias.

Processo de seleção

As coletâneas são temáticas e reúnem textos inéditos de autores em início de carreira, além de contar com a participação de escritores veteranos e, muitos deles, premiados. O material é recebido pelo website e enviado para os organizadores para análise. Estes, então, leem a obra e avaliam a possibilidade de publicação. Caso haja algum ajuste a ser feito, o autor recebe a orientação para isso.
          Depois que o contrato é celebrado, o texto vai para a preparação de originais, quando o copidesque elimina termos repetidos, cacófatos e outras inadequações. Logo em seguida os originais são enviados ao revisor, que cuida para que nenhum possível erro seja publicado. Com o texto pronto, chega a hora da diagramação. Neste processo, o texto em Microsoft Word ganha visual de páginas de livro, e um arquivo pdf é gerado. O arquivo é enviado a todos os autores para aprovação. A próxima etapa é atribuir um número ISBN e enviar o arquivo para a Câmara Brasileira do Livro para a geração da ficha catalográfica. Finalmente o arquivo está pronto para ser impresso.

Lançamentos de livros

Os lançamentos dos livros da Andross se tornaram verdadeiros eventos culturais. São realizadas atividades diversas, como mesas-redondas com especialistas e leituras dramáticas de contos. Depois disso, finalmente dá-se início ao lançamento do livro. Em meio a vinhos e refrigerantes, os autores fazem dedicatórias aos convidados em um clima de confraternização e descontração.

          Algum autor de contos quer participar dos processos de seleção da editora? Existem várias coletâneas abertas! Basta acessar o site e escrever!
Que nossa parceria seja longa e proveitosa!


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09/11/2014

RESENHA - O pequeno príncipe (Antoine de Saint-Exupéry)

         Aviso: O livro “O pequeno príncipe” é, sempre foi e sempre será meu livro favorito. Essa história sempre tocou fundo meu coração, desde a primeira vez que a li. Por ser um livro tão especial para mim, com um valor simbólico e sentimental tão grande, me permiti ser um pouquinho egoísta e egocêntrica e postar essa resenha somente hoje, dia 09 de novembro, meu aniversário. Este é meu presente de aniversário, de Helkem para Helkem, que compartilho com vocês. Espero que apreciem a leitura e se deixem cativar por essa tão emocionante história, assim como fui cativada tantos anos atrás. - Helkem Araújo

Ficha técnica:
Referência bibliográfica: SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O pequeno príncipe. Rio de Janeiro, Editora Agir, 2009. Aquarelas do autor. 48ª edição / 49ª reimpressão. Tradução por Dom Marcos Barbosa.  93 páginas.
Gênero: Infantil; Fábula.
Temas: Amizade, amor, valores pessoais.
Categoria: Literatura estrangeira; literatura francesa.
Ano de lançamento: 1943 nos Estudos Unidos e 1945 na França.












Assim, se alguém lhes disser: ‘A prova de que o principezinho existia é que ele era encantador, que ele ria, e que queria um carneiro. Quando alguém quer um carneiro, é porque existe’, elas pouco se importarão, e nos chamarão de crianças! Mas se dissermos: ‘O planeta de onde ele vinha é o asteroide B 612’, ficarão inteiramente satisfeitas e não nos amolarão com perguntas. Elas são assim mesmo. É preciso não lhes querer mal por isso. As crianças tem que ter um muita paciência com as pessoas grandes.
            Mas, com certeza para nós, que compreendemos o significado da vida, os números não têm tanta importância! Gostaria de ter começado esta história como nos contos de fada. Gostaria de ter começado assim:
            ‘Era uma vez um pequeno príncipe que habitava um planeta um pouco maior que ele, e que precisava de um amigo...’
            Para aqueles que compreendem a vida, isso pareceria, sem dúvida, muito mais verdadeiro. Não gosto que leiam meu livro superficialmente. Dá-me tanta tristeza narrar estas lembranças! Já faz seis anos que meu amigo se foi com seu carneiro. Se tento descrevê-lo aqui, é justamente porque não quero esquecê-lo. É triste esquecer um amigo. Nem todo mundo tem um amigo. E eu corro o risco de ficar como as pessoas grandes, que só se interessam por números. Foi por isso que comprei um estojo de aquarelas e alguns lápis. É difícil voltar a desenhar na minha idade, principalmente quando não se fez outra tentativa além de jiboias fechadas e abertas, aos seis anos! Experimentarei, é claro, fazer os desenhos mais fieis que puder. Mas não tenho muita certeza de conseguir. Um desenho parece passável; outro já é inteiramente diferente. Engano-me também no tamanho. Ora o principezinho está muito grande, ora pequeno demais. Hesito também quanto à cor de suas roupas. Vou arriscando, então, aqui e ali. Provavelmente esquecerei detalhes dos mais importantes. Peço que me perdoem. Meu amigo nunca dava explicações. Julgava-me talvez semelhante a ele. Mas, infelizmente, não sei ver carneiros através de caixas. Talvez eu seja um pouco como as pessoas grandes. Devo ter envelhecido.”
*O pequeno príncipe (pág. 18 e 19).



                Uma pane no motor de seu avião obrigou um piloto a fazer um pouso de emergência no deserto do Saara. Sozinho, longe de qualquer traço de civilização, a quilômetros e quilômetros de lugar algum, ele tinha que consertar o motor antes que sua reserva de água – suficiente apenas para oito dias – acabasse. Qual não foi sua surpresa ao ser despertado pela manhã por um estranho garotinho pedindo que desenhasse um carneiro. A partir de então, o piloto teve como companhia o pequeno príncipe que, ele descobriu aos poucos, viera de um minúsculo planeta – pouco maior que uma casa – onde tinha por companhia os pores-do-sol, três vulcões – um deles extinto – e uma rosa muito bela mas excessivamente orgulhosa. E que o pequeno viajante, cansado de sua rotina e dos excessos da flor, partira à procura de um amigo. Nos dias que passaram juntos no deserto, o pequeno visitante narrou para o adulto sua longa jornada, descrevendo as pessoas e também os seres que conhecera. E, enquanto o motor do avião era consertado, homem e menino se tornaram amigos e o piloto enfim conheceu alguém que enxergava como ele o valor das coisas importantes da vida.
                Uma história singela, ingênua e carregada de significados. Assim é “O pequeno príncipe” de Antoine de Saint-Exupéry. Mais que o simples relato de acontecimentos, a obra trata de encontros, experiências de vida e, sobretudo, de valores pessoais. A história de um homem que, apesar de adulto e de conviver com “pessoas grandes” e perante elas se comportar como tal, jamais deixou de ser a criança que foi um dia e nunca abandonou seu modo simples de enxergar o mundo à sua volta. A história de um principezinho de um pequeno planeta, desprovido de amarras sociais, de incoerências e de falsos valores, que em sua inocência de criança enxerga o mundo – tudo e todos – com olhos de curiosidade e de entendimento daquilo que não se vê, apenas se sente. A história de quando homem e menino se conhecem e aprendem muito um com o outro.
Narrada em primeira pessoa, a história é contada pelo piloto seis anos após sua pane no deserto. O piloto, que não é identificado por nome ou alcunha (isso seria importante?), relata como conheceu o pequeno príncipe (que também não é identificado por um nome, somente a denominação do que ele efetivamente era, um pequeno príncipe de um planetinha distante, assim sem maiúscula que caracterizasse um título), como foram seus dias juntos no deserto, como foram suas meias conversas – porque o principezinho nunca respondia uma pergunta e jamais desistia de uma pergunta que houvesse feito – e as valiosas lições que aprendeu com ele. O texto intercala os momentos em que o piloto narra seus momentos com o pequeno visitante e os momentos em que ele narra, como um narrador onisciente, as aventuras do príncipe em suas viagens. A linguagem culta, característica da época em que o livro foi escrito (1943) não impede que o texto adote uma postura simples e clara perante seu leitor. Escrito para o público infantil, o narrador expressa constantemente suas opiniões e impressões, todas provenientes de um adulto que jamais abandonou sua criança interior e enxerga o mundo através da lente da simplicidade subjetiva e do coração, em oposição à visão adulta, prática, lógica e desprovida – segundo sua percepção – dos verdadeiros valores. E nesse clima de descontração e liberdade poética, Saint-Exupéry transmite importantes noções e conceitos, valorosas lições para adultos e crianças: o valor da amizade sincera, da conquista de um coração; o valor de um trabalho com propósito em oposição àquele motivado apenas pelo acúmulo de bens e de riquezas; o uso correto da autoridade e do status; a insignificância dos números e sua incapacidade de expressar os verdadeiros valores, entre tantas outras. E há as aquarelas, as ilustrações feitas pelo próprio Saint-Exupéry. Lindas e singelas, exemplificam com excelência as ideias contidas no livro e a leveza da história a ser contada.
Antoine-Jean-Baptiste-Marie-Roger Foscolombe de Saint-Exupéry, terceiro fruto do casamento entre o conde Jean Saint-Exupéry e da condessa Marie Foscolombe, nasceu em Lyon, na França, em junho de 1900. Apaixonado por mecânica e aviação, assumiu o posto de subtenente de reserva e tornou-se piloto aos 21 anos. Realizou várias missões como piloto em países como Marrocos, Senegal, Estados Unidos e, claro, França. Em seus voos, Antoine de Saint-Exupéry esteve inclusive em Florianópolis, Brasil, onde funcionava um campo de pouso sob administração francesa. Mas aviação não era a única paixão deste piloto francês. Ele era também ilustrador e escritor. Escreveu para jornais e revistas francesas e publicou vários livros abordando temas como a guerra civil e a ocupação alemã na França. A aviação era tema recorrente em suas histórias. Sua mais importante obra, “O pequeno príncipe”, foi escrita durante seu exilio nos Estados Unidos. Estando em terras americanas, Saint-Exupéry fez um acordo com sua editora norte-americana para que o livro fosse publicado simultaneamente nos EUA e na França. Entretanto, o autor não viveu o suficiente para ver o sucesso de sua obra. Em julho de 1944, num voo com objetivo de observar os movimentos das tropas alemãs, o piloto-escritor, então com 44 anos, sofreu um acidente fatal próximo à Baía de Carqueiranne, em Toulon. Os destroços do avião foram encontrados somente em 2004, sessenta anos após sua morte. O corpo jamais foi localizado. O livro foi publicado nos EUA em 1943. O autor recebeu o primeiro exemplar alguns dias antes de embarcar na fatídica viagem que resultou em sua morte. Na França, a publicação póstuma ocorreu em 1945.
O sucesso de “O pequeno príncipe” foi e continua sendo tão estrondoso que a obra coleciona números e títulos consideráveis: é o maior best-seller da literatura francesa; em escala mundial, detém o posto de 5ª obra mais vendida; já vendeu em todo o globo aproximadamente 140 milhões de exemplares; é o terceiro livro mais traduzido no mundo; possui edições em mais de 210 idiomas, incluindo nessa lista o toba, uma língua do norte da Argentina; também possuem transcrições para o braile. Mas apesar dos números serem impressionantes, a magnitude da obra não pode ser expressa por eles. Nas palavras do próprio Saint-Exupéry: “Mas, com certeza, para nós, que compreendemos o significado da vida, os números não têm importância!” (pág. 18). E como ele faz ao explanar nas páginas do livro sobre o exagerado valor que as “pessoas grandes” atribuem aos números em detrimento das qualidades reais das pessoas e das coisas, o valor do seu “O pequeno príncipe” extrapola o que a matemática pode quantificar. É um livro que presenteia o leitor com uma visão simples, porém tão profunda e verdadeira da vida que toca o coração de todo ser humano que detiver seus olhos por suas páginas. É um livro para ser lido quando criança; para ser relido quando adolescente; para ser relembrado e novamente relido quando adulto; para ser interiorizado na alma quando da chegada dos filhos; para ser apreciado e degustado quando a sabedoria da velhice bater à porta. É uma obra para todas as idades e para todas as gerações. E a prova de que seu valor é incomensurável e verdadeiro é sua capacidade de comover e fazer pensar; e de resgatar a criança interior de cada um, de acalentá-la e fazê-la novamente se despir de ideias pré-concebidas e equivocadas, fazendo-a enxergar que “o essencial é invisível aos olhos” (pág. 70).




Bibliografia de Antoine de Saint-Exupéry (ordem cronológica):
  • L’Aviateur (O aviador) – 1926;
  • Courrier sud (Correio do Sul) – 1929;
  • Vol de Nuit (Voo Noturno) – 1931;
  • Terre des hommes (Terra dos homens) – 1939;
  • Pilote de guerre (Piloto de guerra) – 1942;
  • Le Petit Prince (O pequeno príncipe) – 1943 nos Estados Unidos e 1945 na França;
  • Lettre à um otage (Carta a um refém) – 1943/1944;
  • Citadelle (Cidadela) – 1948, póstumo.


Estátua de Saint-Exupéry usando seu uniforme de piloto ao lado do pequeno príncipe - Lyon, França.


Cédulas comemorativas de 50 francos lançadas na França em 1993 em homenagem aos 50 anos de publicação de "O pequeno príncipe".


Referências:

Crédito das imagens:
Cédulas - Blog do Curioso
Estátua em Lyon - Flickr Mauricio e Debora
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