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29/11/2013

RESENHA - O Meu Pé de Laranja Lima (José M. de Vasconcelos)

Ficha técnica:
Referência bibliográfica:  Vasconcelos, José Mauro de. O Meu Pé de Laranja Lima. São Paulo, Editora Melhoramentos, 2005. 2ª edição, 115ª impressão. 192 páginas.
Gênero: Drama e romance juvenil
Temas: Amizade, simplicidade, sentimentos.
Categoria: Literatura Infanto-juvenil (nacional)
Ano de lançamento 1968











“Agora sabia mesmo o que era a dor. Dor não era apanhar de desmaiar. Não era cortar o pé com caco de vidro e levar pontos na farmácia. Dor era aquilo, que doía o coração todinho, que a gente tinha que morrer com ela, sem poder contar para ninguém o segredo. Dor que dava desânimo nos braços, na cabeça, até na vontade de virar a cabeça no travesseiro.”
O Meu Pé de Laranja Lima (pág. 174)

                                                  
O livro que foi publicado em 1968, mas que até hoje é lido em diversos países. Traduzido em 52 línguas e adaptado para o cinema, televisão e o teatro. A literatura infanto-juvenil mais emocionante, mais dramática e porque não mais romântica.  O que é pobreza? O que é amizade? O que é dor? E o que é realidade ou imaginação?

Zezé é um menino de seis anos, muito inteligente, curioso, traquinas, sensível, criativo, carente, um tanto imaginativo e parte de uma família pobre. Sua família é paupérrima, porém muito trabalhadora, como muitas famílias do Brasil. Sua mãe trabalhava o dia inteiro, seu pai encontrava-se desempregado e seus irmãos mais velhos trabalhavam e cuidavam do mais novo. Zezé, às vezes, era judiado por seus irmãos Jandira e Totoca, mas sempre podia contar com os cuidados e proteção de sua irmã Glória, mais conhecida como “Godóia”. Devido à preocupação pela sobrevivência da família, os pais de Zezé se descuidam do fundamental: do amor e da companhia que podem oferecer a uma criança. Godóia, por ser muito protetora, tenta preencher esse descuido e é uma das poucas que compreende o motivo do menino se endiabrar às vezes. Com a falta de afeto que não encontra na família, o menino endiabrado vai pelas ruas fazendo mil travessuras, pregando peças e quando enfezado soltava até palavrões. Ao ter atitudes como essa acabava levando broncas ou até surras de seus pais e de seus irmãos que diziam que ele era uma pessoa má.

       "Eu não presto para nada. Sou muito ruim. Por isso é o diabo que nasce para mim no dia do Natal e eu não ganho nada. Sou uma peste. Uma pestinha. Um cachorro. Um traste ordinário. Uma das minhas irmãs me disse que coisa ruim como eu não devia ter nascido..." (pág.122).

Zezé aprendeu a se virar sozinho e até a ler sozinho. Às vezes pensava que o pensamento era um passarinho ditando versos dentro dele mesmo. Um menino muito curioso que adorava aprender coisas novas, palavras novas e difíceis, mas por ser esperto e ao mesmo tempo não entender muitas coisas acabava se metendo em enrascadas. Essas travessuras tornava-o conhecido em suas redondezas e com poucos amigos. O menino sofre as injustiças do mundo adulto, aprende cedo demais o que é a dor e a tristeza. A infância deveria ser a fase mais feliz, mas nem sempre é assim.


“-Fica feio se eu chorar?
–Nunca é feio chorar, bobo. Por quê?
–Não sei,ainda não me acostumei. Parece que 
aqui dentro a minha gaiola ficou vazia demais...” (pág.69) 

As dificuldades fizeram com que a família se mudasse de casa e lá Zezé encontra um pé de laranja lima em seu quintal que se tornou seu maior amigo. Com o apoio da árvore, o menino refugiu e recebeu todo o carinho e atenção que não recebia de sua família. A partir de então, Zezé usa o mundo da imaginação para escapar da realidade da vida até o dia em que descobre que não pode mais fugir disso.

"Mas que lindo pezinho de Laranja Lima! Veja que não tem nem um espinho. Ele tem tanta personalidade que a gente de longe já sabe que é Laranja Lima. Se eu fosse do seu tamanho, não queria outra coisa" (pág.32). 

Sem querer, o menino acaba fazendo amizade com o Portuga, um comerciante que faz o garoto se sentir querido pela primeira vez na vida e que tem um papel muito importante na vida de Zezé fazendo a criança entender o que é a vida e o que é crescer.

A linguagem do livro é de fácil compreensão, mesmo com o fato de ser narrado com a maneira regional de se falar e de retratar uma verdade dolorida e fiel da classe baixa. Podemos até dizer que a fala regional confere um encantamento para que a linguagem ficasse de forma tão modesta, singela e bonita, trazendo mesmo aquele ar de se estar ouvindo a voz da criança contando. O livro se revela reflexivo em diversos momentos e com uma pitada de doçura. Relembrando como é a inocência da criança e também como é a dor da descoberta da vida. No momento de reflexão conclui que Zezé foi um menino que perdeu seu direito de ser criança cedo demais, apreendendo a se virar sozinho e aprendendo depressa demais coisas que nem deveria se importar por agora, sim este era um garoto prodígio. Certas coisas que ele fazia não era por maldade e sim por sua inocência e falta de entendimento. Arrisco-me a dizer que o que mais fascina os leitores a esta obra é o fato de não apenas retratar o lado imaginativo em uma vida dura, mas especialmente por abordar sentimentos e a questão da morte dentro do imaginário infantil.

O Meu Pé de Laranja Lima é narrado em terceira pessoa e dividido em duas partes, sendo que na primeira temos cinco seções que retrata o menino que aprende tudo sozinho e que tem uma imaginação pra lá de solta. Ao mesmo tempo demonstra a rotina de Zezé e como é seu convívio com as pessoas, com sua pobreza, curiosidade, inocência e levadeza. Sua mais improvável amizade é com a pequena árvore do quintal - o Pé de Laranja Lima – mais conhecido como “Minguinho” ou na forma mais amorosa “Xururuca”, que ouve, fala, brinca, dá conselhos e é seu maior confidente em seu mundo de fantasias. Na segunda parte, a divisão se dá em nove seções, que retrata as traquinagens e surras feitas e recebidas respectivamente, pelo menino. Também apresenta “Portuga” onde descobre o que é amizade, ternura, carinho e até mesmo admiração por alguém. Demonstrando todo tipo de sentimento que se possa passar em um garoto de 6 anos como Zezé.

Dos mais famosos livros da literatura infanto-juvenil, “O Pequeno Príncipe” (autor: Antoine de Saint-Exupéry), “Flicts” (autor: Ziraldo), entre outros, afirmo que “O Meu Pé de Laranja Lima” é o livro mais emocionante que pode ser passado a qualquer pessoa. Seja criança, adolescente, adulto ou idoso. Afirmo porque a moral deste livro cabe a qualquer fase da vida. Você que gosta de uma história emocionante, simples, com sentidos e significado e uma pitada de drama, não deixe de ler.  Tenho orgulho de recomendar e dizer que tenho certeza que quem já leu considera esta uma das histórias mais inesquecíveis e envolventes a ponto de te levar a pensar em outra realidade.

O “Meu Pé de Laranja Lima” é o maior sucesso na carreira do escritor José Mauro de Vasconcelos, carioca, nascido em Bangu, no Rio de Janeiro, sendo de uma família muito pobre. Aprendeu a ler sozinho e devido a seu espírito irrequieto, fez várias tentativas de estudos: Medicina, principiou Desenho, Direito e Filosofia. Aos quinze anos morou sozinho no Rio de Janeiro. Teve diversos empregos para conseguir se sustentar, como: pescador, professor, modelo, bailarino, garçom, ator de cinema, teatro e televisão e escritor. O escritor possuía qualidades como uma fabulosa memória, imensa imaginação e prodigiosa capacidade de contar histórias sendo determinantes em seus personagens, cenários e suas obras. Apesar destas qualidades José Mauro não quis ser escritor, foi obrigado a sê-lo, pois ele tinha de escrever e contar coisas. Os seus romances, como a lava de um vulcão, foram lançados para fora, porque transbordava de emoções.

Frase dita pelo autor: “a literatura é a arte mais difícil, porque a palavra tem que dar ao todo as cores e nuanças da pintura, o som e a harmonia da música, o movimento. Escrever é a maneira que encontrei para transmitir minhas vivências, o bem e o mal, e um sentimento que anda muito esquecido: a ternura. E a vida sem ternura não vale nada.”

Obras
·         Banana Brava (1942)
·         Barro Blanco (1948)
·         Longe da Terra (1949)
·         Vazante (1951)
·         Arara Vermelha (1953)
·         Arraia de Fogo (1955)
·         Rosinha, Minha Canoa (1962)
·         Doidão (1963)
·         O Garanhão das Praias (1964)
·         Coração de Vidro (1964)
·         As Confissões de Frei Abóbora (1966)
·         O Meu Pé de Laranja Lima (1968)
·         Rua Descalça (1969)
·         O Palácio Japonês (1969)
·         Farinha Órfã (1970)
·         Chuva Crioula (1972)
·         O Veleiro de Cristal (1973)
·         Vamos Aquecer o Sol (1974)
·         A Ceia (1975)
·         O Menino Invisível (1978)
·         Kuryala: Capitão e Carajá (1979)
Comentários
6 Comentários

6 comentários:

  1. Thais, meu amor!!! Ficou linda a resenha!!! Parabéns!!!!
    Gostei mesmo. E fiquei mega curiosa para ler o livro. Vai entrar na listinha. Preciso de tempo pra ler urgente!!! A lista tá ficando enorme e não tô dando conta, sniffff T-T

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  2. É linda a história desse livro sempre fui louca para lê-lo pena que nunca encontrei para comprar e ninguém tem para emprestar. Parabéns pela resenha ótima. :)

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  3. Obrigada, Regina. Você encontra ele na Amazon, na Saraiva e outras livrarias. Onde você mora?

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  4. Helkem meu amor, obrigada! E pode reserva um tempinho pra ele que você com seu hábito de leitura vai lê-lo em um dia, no máximo dois e pode vir buscar que te empresto. ;)

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  5. Parabéns Thais pela excelente postagem sobre este livro fantástico de José Maruro Vasconcelos. Também escrevi uma breve crônica sobre este livro no meu blog "Verdades de um ser".
    Você fez uma análise muito bem estruturada e fundamentada. Mesmo para quem não leu o livro, você consegue transmitir uma noção bem precisa sobre ele.

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  6. Obrigada Alberto. Eu realmente amo esse livro e sempre que posso recomendo essa leitura. Eu li sua breve crônica e concordo plenamente quando disse "Ao terminar, ficou uma sensação de vazio. Não havia mais o que ler. Ao mesmo tempo, um sentimento de satisfação interior incomparável.", me descreveu! E as frases no finais, nossa uma melhor que a outra. E você também deixa aquele sentimento de quem chorou, riu e se encantou com o livro.
    Deixarei o link aqui para quem quiser ler também: http://verdadesdeumser.wordpress.com/2014/02/25/meu-pe-de-laranja-lima-livro/

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