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07/10/2014

RESENHA - Clube da Luta (Chuck Palahniuk)

Ficha técnica:
Referência bibliográfica: PALAHNIUK, Chuck. Clube da Luta. 1ª edição. Pacaembu - SP, Leya Editora, 2012. 142 páginas.
Gênero: Ficção.
Temas: Drama, suspense, humor crítico, revolução filosófica.
Categoria: Literatura Estrangeira: Literatura Norte-Americana
Ano de lançamento: 1996

















“Tyler diz que ainda não estou nem perto de chegar ao fundo do poço. E que se não cair até lá não poderei ser salvo. Jesus fez isso ao ser crucificado. Não adianta apenas ter abandonado o dinheiro, bens materiais e o conhecimento. Isso não é apenas um retiro de fim de semana. Deveria estar me afastando do autoaperfeiçoamento e correndo em direção ao desastre. Não posso mais jogar isso de modo seguro. Isso não é um seminário. − Se você perder a coragem antes de atingir o fundo do poço – Tyler explica − jamais terá sucesso de verdade. Apenas depois do desastre é que podemos ressuscitar.  Apenas depois de perder tudo é que você estará livre para fazer qualquer coisa – Tyler diz.”
*Clube da Luta (pág. 44).


A princípio, Clube da Luta é simplesmente a história de um homem narrada por ele próprio. O personagem (apelidado de "Jack" por alguns fãs da obra, mas sem um nome revelado tanto no livro quanto no filme) tem uma vida aparentemente perfeita e organizada. O livro ensina muitas questões filosóficas e uma delas diz respeito à perfeição. A vida que lhe é imposta pela sociedade não passa de bosta. Pelo menos assim diria Tyler. Apesar das aparências, interiormente, o personagem sem nome passa por problemas de depressão e principalmente insônia. Seguindo as dicas de seu médico, o narrador resolve frequentar grupos de apoio de várias doenças quase todos os dias, fingindo tê-las, com o propósito de experimentar um pouco de sofrimento alheio e, com isso, passar por uma espécie de purificação espiritual, melhorando satisfatoriamente seu quadro de insônia. O resultado acaba sendo melhor do que o esperado e o narrador vê em sua nova prática de frequentar grupos de apoio a solução para a sua vida, que começa a fazer mais sentido e lhe render, enfim, razoáveis noites de sono.
Entretanto, eis que ela aparece. Marla, uma fumante compulsiva que frequenta mais de um grupo de apoio, assim como o protagonista da trama. Ele sabe que a moça é uma farsante e isso o incomoda, embora ele também o seja. De certa forma ela mexe com o personagem e, diante de seu quadro de incômodo pela presença da mulher, sua insônia resolve aparecer novamente. E de repente os grupos de apoio não são mais o bastante. Ele confronta-a e se conhecem melhor, combinando, por fim, de aparecerem nos grupos separados, dividindo os dias a fim de nunca estarem juntos.
Paralelamente a isso, numa praia de nudismo, o personagem conhece o homem responsável pelo sucesso do livro. Tyler Durden. Um misterioso ser que aparentemente entende sobre fabricação de sabões, explosivos caseiros e é projetista de cinema (deixando claro que o livro não fora escrito na era digital), além de ter seu emprego noturno de garçom. Apesar das personalidades opostas, Tyler e o narrador da história viram melhores amigos, ainda mais após o apartamento deste pegar fogo misteriosamente, fazendo com que recorra à ajuda de Tyler, que o convida para morarem juntos.
                Durante uma inocente noite de bebidas e prosas entre dois bons amigos, Tyler pede para ser golpeado pelo narrador da história com toda a força. Mesmo hesitante, assim o faz e, em resposta, recebe um golpe de Tyler de volta. Com uma briga iniciada e pessoas em volta observando e incentivando, eles percebem algo incrível que mudaria suas vidas para sempre.
A presente resenha visa desobedecer regras. A primeira regra do clube da luta é não falar sobre o clube da luta. A segunda regra sobre o clube da luta é, também, não falar sobre o clube da luta. Existem outras regras como, por exemplo, a de que devem ser só dois homens por luta, ou aquela que dispõe que novatos devem lutar na primeira noite, etc, mas isso o leitor descobre ao longo do livro. Apesar de Tyler e o narrador sem nome fundarem juntos a organização, é Tyler quem dá as cartas. Ele possui uma personalidade voltada ao anarquismo (excetuando o clube da luta e suas regras) como uma forma de crítica natural da sociedade, valorizando uma vida de extremos e adrenalina que ao longo da história mostra-se cada vez mais perceptível e maior. Tyler, definitivamente, não é um homem qualquer e visa à libertação da alma através dos riscos e da autodestruição.
                Não é um livro sobre brigas e pancadaria, muito pelo contrário. A análise não é material e sim espiritual. Também não é sobre ganhar ou perder uma luta. Lutar no clube da luta é terapia, iluminação, aprendizado. O perdedor não perde e o vencedor não ganha. Os dois unem suas almas e trabalham juntos para atingir a impossível perfeição. Quem entra no clube da luta visa melhorar seu próprio eu. Ao longo da trama vai ser natural observar por todo o canto pessoas de rostos marcados por hematomas e curativos, de dentes quebrados e pontos fechados, porém sorrindo, ainda mais se encontrarem de perto o seu líder e mentor, Tyler Durden, que vira uma lenda dentro da organização. Dentro do clube da luta estarão lixeiros, policiais, carpinteiros, garçons, empresários, políticos, ou seja, ricos e pobres, todo tipo de gente. Os participantes mudam suas posturas e se transformam naquilo que Tyler sempre almeja. Independência e coragem para enfrentar seus medos diante da vida. Fora do clube da luta você é um e dentro será outro, mas uma vez praticando e lutando, a sua alma é renovada e isso se reflete na sua vida pessoal.
             No decorrer da obra, Tyler começa a se mostrar mais ousado com suas filosofias de libertação do plano material através do caos e toma atitudes bem mais complicadas de se lidar. Suas filosofias apresentadas ao longo da obra revelam bons ensinamentos que podem fazer o leitor atento questionar seu papel real na sociedade e na vida. Faz questionar se o que fazemos para termos a nossa vida perfeita tem, de fato, algum sentido e deve ser levado a sério.
              A leitura flui tão bem que quando o leitor finalmente se der conta vai perceber que a situação do início para o fim mudou drasticamente numa sutileza genial ao longo da história. Os dois, Tyler e o narrador, melhores amigos, estarão cada vez mais ligados e contrariados até o final surpreendente para o leitor. E Marla, de certa forma, no meio dos dois, fazendo um dos melhores papéis secundários e que faz algum sentido que eu já vi em livros. A análise desse parágrafo em específico vale tanto para o filme quanto para o livro, sendo aquele uma cópia quase totalmente fiel deste. O livro possui muito mais detalhes, mas o filme é uma adaptação sem diferenças gritantes.

Alerta de Spoiler, clique para ver!
            Acredito que o narrador e Tyler serem a mesma pessoa com essa dupla personalidade de forma extremamente oposta é uma grande sacada do autor. Tyler é tudo o que o narrador quer ser na vida. Seu estilo, aparência, personalidade e inteligência. Quando o leitor se dá conta desse fato é a maior das surpresas presentes na obra. Tanta insônia e depressão acabaram produzindo um novo eu em sua alma. Psiquiatricamente esquizofrênico, mas sendo filosoficamente uma forma de alcançar a liberdade espiritual que tanto deseja. Não é à toa que desde que conheceu Tyler e fundou com ele, ou consigo mesmo, o clube da luta, sua personalidade melhora na visão de si mesmo. Transforma-se num ser mais dono de si, enfrentando seu chefe, por exemplo. E provavelmente ocorre o mesmo tipo de coisa com todos os outros membros do clube da luta. Tyler também aparece como amante de Marla, podendo talvez significar que é a parte da personalidade do personagem narrador que gosta da moça e não só se incomoda com a presença da mesma.
                 A obra é narrada em primeira pessoa, como já deve ter sido percebido, pelo protagonista sem nome, sendo um narrador personagem ou ativo por participar da história. A linguagem é moderada, sendo facilmente entendida pelo leitor comum e sem erros grosseiros. O início do livro pode parecer, num primeiro momento, um pouco confuso, visto que a narrativa não é linear, utilizando o recurso de flashback, no caso já começando do final e, avançando posteriormente ao início. É dividido em trinta capítulos, com os iniciais procedendo de uma ordem e organização de acontecimentos numa sequência não muito clara. Ao menos avançando para mais da metade do livro as ideias vão tomando rumo e forma com uns encaixes bem sutis, revelando a junção de acontecimentos aparentemente isolados complementando-se de forma harmoniosa. Apesar do foco inicial ser a vida do protagonista, o livro acaba se concentrando cada vez mais nos feitos, ideias e influências de Tyler.
                A mente por trás da obra literária é Chuck Palahniuk (21 de Fevereiro de 1961). Um escritor e jornalista residente em Portland, Oregon, mas nascido em Pasco, Washington. Clube da Luta foi publicado por ele em 1996 sendo sua primeira e mais popular obra, obtendo sua adaptação em 1999 para o cinema, com Brad Pitt no papel de Tyler. Ele já passou por momentos difíceis, como quando seu pai e sua madrastra foram assassinados pelo ex-marido dela. Como se não bastasse, em sua época adolescente, seu avô cometeu suicídio após matar a mulher. É comum que suas obras comecem do fim e que seus personagens tenham tendências auto-destrutivas, assim como ocorre em Clube da Luta. Ele anunciou em 2013 uma continuação para a obra a ser lançada em 2015. Aguardemos. 
                 O livro é altamente indicado para pessoas que gostam de obras que as façam pensar e refletir sobre suas vidas. Quem lê este livro pode começar a questionar a sua própria realidade e, se mesmo assim não o fizer, inevitavelmente não deixará de se levar pela história e adentrar no espaço e vida de Tyler Durden. Somente deve-se tomar o devido cuidado de não se deixar influenciar demais por sua personalidade e filosofias. Quem ler até o final provavelmente vai entender. 



Bibliografia de Chuck Palahniuk (ordem cronológica):

Livros:
  • Clube da Luta (Fight Club, 1996)
  • Sobrevivente (Survivor, 1999)
  • Monstros Invisíveis (Invisible Monsters, 1999)
  • No Sufoco (Choke, 2001)
  • Cantiga de Ninar (Lullaby, 2002)
  • Diário (Diary, 2003)
  • Assombro (Haunted, 2005)
  • Rant (2007 - não traduzido)
  • Snuff (Snuff, 2008)
  • Pygmy (2009 - não traduzido)
  • Tell-All (2010 - não traduzido)
  • Condenada (Damned, 2011)
  • Maldita (Doomed, 2013)
  • Beautiful You (2014)

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