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13/01/2015

RESENHA - A Lenda de Ruff Ghanor - Volume 1: O Garoto-Cabra (Leonel Caldela)

Ficha técnica:
Referência bibliográfica: CALDELA, Leonel. A Lenda de Ruff Ghanor - Volume 1: Garoto-Cabra. 1ª edição. Curitiba, Nerd Books, 2014. 314 páginas.
Gênero: Fantasia Medieval
Temas: Guerra, Magia, Dragões, Deuses, Demônios
Categoria: Literatura Nacional
Ano de lançamento: 2014
Série: A Lenda de Ruff Ghanor - Volume 1: Garoto-Cabra.














“- Poucos lembram deste símbolo, garoto-cabra. Talvez apenas um punhado no continente inteiro. Mas passei boa parte da vida estudando e li tomos que não existem em lugar nenhum, exceto aqui. Este é o símbolo de uma linhagem que todos julgavam extinta. Uma linhagem de reis.
- Sou um rei?
- Você é o garoto que surgiu quando buscávamos uma cabra! Um garoto com um grande peso nas costas.
Calados.
- Mas tem uma linhagem – disse o prior. – Tem um nome.
- E qual é meu nome?
As palavras vieram sólidas, como uma pedra de catapulta. Como um rugido seguido do clangor de uma espada, o nome reverberou:
- Ruff Ghanor.”

*A Lenda de Ruff Ghanor: Garoto-Cabra (pág. 51).



Em uma terra inclemente e distante, assolada por monstros e governada pelo terrível dragão Zamir, ergue-se o Mosteiro de São Arnaldo. Os clérigos do santo tentam viver em paz, sob o julgo do tirano, quando em uma noite chuvosa encontram um estranho garoto. Uma criança selvagem que parece não entender a língua dos homens. Um garoto que luta como um adulto, que mata como um monstro, capaz de criar terremotos com as mãos nuas, apenas batendo seu punho contra o chão. Seu nome é como um rugido: Ruff Ghanor.
Descendente de uma linhagem esquecida de reis, Ruff Ghanor pode ser o grande escolhido para combater o dragão. Vivendo no mosteiro isolado do resto do mundo, ele cresce com o peso de seu destino, cercado pelos amigos que cultivou ao longo dos anos e seu grande amor de infância. Treinado desde pequeno pelo rigoroso e implacável prior, Ruff tem um futuro de glória e sangue.
A história de um jovem com um dever monumental, imposto por homens e deuses. Uma vida repleta de fúria e paixão, medo e fé. O início da jornada de um herói e de um rei.
Esta é a lenda de Ruff Ghanor.

Foto: Academia Literária DF
       Leonel Caldela brinda seus leitores com mais uma fantástica obra nacional. A Lenda de Ruff Ghanor: O Garoto-Cabra é o primeiro livro de uma trilogia idealizada após uma sessão de RPG, narrado e transmitido via podcast pelo canal do Jovem Nerd. Aliás, essa obra foi um mero acontecimento do acaso, um acidente. Tudo começou nessa sessão de RPG, onde um dos jogadores perguntou ao mestre do jogo (aquele que narra à história) qual era o reino em que estavam jogando. De supetão ele respondeu: Ghanor. A Lenda de Ruff Ghanor, como ele explica, era um detalhe secundário no cenário, que devido ao grande sucesso do podcast ganhou forma, volume e consequentemente uma história. Então, eis que surge a figura do autor Leonel Caldela, convidado a dar vida ao passado do herói de Ghanor. Leonel foi convidado a escrever a história, por seu histórico de trabalhos compartilhados, ou seja, criar uma história a partir de um cenário pronto. No início de sua carreira, sua primeira trilogia foi um romance que se passava no cenário de Tormenta, o maior cenário de RPG brasileiro. Seu trabalho em A Lenda de Ruff Ghanor foi expandir e dar vida ao herói e a todos que estavam envolvidos com ele.
A história começa com a fuga de cabras. Os acólitos Niccolas e Dunnius recebem a missão de localizá-las e levá-las de volta ao curral. Ainda faltava uma e ambos estavam indo em direção ao bosque, quando foram abordados por um garotinho de nome Korin, que dizia que eles estavam indo pelo caminho errado. A última cabra havia ido para a montanha, em direção ao Túnel Proibido. Depois de muito discutir e temer, o trio (Korin havia desobedecido a ordem de não segui-los) entrou na caverna e lá encontraram algo que mudaria suas vidas para sempre: um garoto. Mas não um garoto qualquer. Era um menino nu, de no máximo sete anos, que havia acabado de derrubar um lagarto gigante e ainda lutava contra mais dois. E isso nem foi o mais impressionante. Uma luz vinda de lugar nenhum iluminou o ambiente e desapareceu instantes depois de cegar o inimigo do garoto que fechou os punhos e golpeou o chão, causando um terremoto, abrindo o chão, derrubando o inimigo. O garoto foi apresentado ao prior, que imediatamente enxergou nele um potencial. O menino foi adotado pelo mosteiro e lá começou sua jornada, lá começou a trilhar seu destino.
Eu me identifiquei rapidamente com a história. Acompanho o trabalho de Leonel Caldela desde seu livro de estreia e posso dizer com segurança que o autor sabe como escrever bem. Usando de sua vasta experiência com o cenário de RPG Tormenta, o autor construiu com maestria um mundo medieval repleto de perigos e mistérios. Recheado de personagens cativantes e cenários bem descritos. Batalhas épicas e acontecimentos memoráveis. Leonel é para mim um dos maiores representantes da literatura fantástica nacional. Foi através dele que eu peguei gosto pela leitura e comecei a pesquisar mais sobre autores nacionais. Tudo começou com o primeiro livro de literatura que eu li por gosto e não por obrigação: O “Inimigo do Mundo”. Mas isso é história para outra hora.
Os personagens são bem elaborados, complexos e ricos em personalidade. Ruff Ghanor é um garoto persistente e impulsivo, para ele todo o esforço é pouco para alcançar seus objetivos. Obedece as ordens do Prior sem pestanejar, mas ao mesmo tempo o ignora completamente quando vê uma injustiça ou amigo em perigo. Korin é leal e teimoso, seguindo Ruff desde a infância, confia cegamente no destino do amigo e o acompanha, mesmo diante da morte certa. Áxia é uma garota corajosa e inteligente. Sofrendo abusos dos moradores da aldeia por conta da profissão de sua mãe e da deficiência de seu irmão, encontra na magia e no amor de Ruff um porto seguro. O prior, líder do Mosteiro de São Arnaldo é um homem severo, exigente e soturno, mas que guarda em seu coração um grande apego por Ruff e Korin e os guia na importante missão de derrotar Zamir. Os dramas de cada personagem são dignos de nota, cada um tem em seu passado alguma história sofrida de dor e tristeza, mas ao mesmo tempo, cada um guarda em seu âmago a esperança de um futuro melhor e isso só aumenta a medida que o escolhido adquire mais experiência. E são essas narrativas que fazem com que o leitor se importe, torça por alguns e amaldiçoe outros. Nenhum dos personagens ficou de escanteio, todos tiveram seus momentos e nenhum deles foi inserido na história sem um motivo.
Alerta de Spoiler, clique para ver!
Porém, quem merece um destaque enorme é o Prior. A história dele é S-E-N-S-A-C-I-O-N-A-L. Muito profunda, incrivelmente bem construída e com uma revelação fantástica. Uma total surpresa para os leitores, pois creio que ninguém imaginava algo assim para o passado dele. O melhor de tudo, é que a trajetória de sua vida toca no âmago de qualquer leitor que a leia. Pois a história desse homem, os aprendizados, as ideias, as experiências, se constroem em meio aos livros, assim como a história de muitos leitores que estão lendo esta resenha, ele aprendeu a ser uma pessoa melhor.

Ele viu a lâmina e sacou o machado. Olhou ao redor: seus comandados já arreganhavam os dentes, as mãos nos cabos de suas armas. Ele sentiu um frio profundo no estômago. Por que estava prestes a fazer aquilo? Por que, depois das chacinas, das atrocidades, a queima de uma biblioteca acendia seus escrúpulos?
Porque os livros o haviam mudado.
Porque, de alguma forma, aquilo parecia pior do que matar. Aquilo era matar o futuro.
Ele matara a própria mãe. Mas não conseguia matar o futuro que sua mãe havia ajudado a construir. Pág 160


A amizade de Ruff e Korin é outro ponto fortíssimo na trama. É comum vermos em histórias, principalmente aquelas de heróis, amigos inseparáveis, que estão juntos na vida e na morte, mas poucos conseguem retratar isso com tanta fidelidade como nesse livro. Korin é mais fraco, menos experiente, menos treinado e menos abençoado, mas isso não o impede de seguir Ruff, não o impede de segui-lo nas piores missões. Em determinados momentos, ele chega a ser o cérebro e consciência de Ruff. Korin é o alívio cômico da história. Sempre com uma piada em momentos de tensão, sempre com uma frase de efeito quando a coisa está feia para os dois. Sempre leal, sempre amigo.

- Ajude-me, Korin. Ajude-me. Preciso de sua força.
- Ainda bem que você notou isso, seu idiota. Não vou deixá-lo sozinho, você morreria em dois minutos! Pág 248

Até mesmo nas brigas (que aumentavam à medida que cresciam) os dois cuidavam um do outro. Em meio a xingamentos, socos e chutes havia amizade, fé e confiança.
Alguns capítulos são surpreendentes, cheios de emoção e moral, daquelas que você para de ler e fica olhando para o vazio, para refletir um pouco sobre o que aconteceu. As mortes, os ensinamentos, algumas ações e algumas descrições nos convidam a pensar sobre nossa própria realidade, sobre o que vivemos e fazemos no mundo. O preconceito, a discórdia, as intrigas, as brigas, os amores, as amizades, as tragédias. A realidade se mistura com a fantasia com naturalidade na obra.
Apesar de muitos saberem qual o destino de Ruff, a história nem de longe é previsível. Há reviravoltas extraordinárias que fazem a história ficar ainda mais instigante, que fazem o leitor querer “ler só mais um capítulo” para saber o que acontece a seguir. Os momentos de calmaria rapidamente se transformam em cenas de ação e tensão, para novamente voltarem à calmaria, apenas para revelar algo ainda mais frenético e chocante, de forma que o leitor não irá se cansar de devorar as páginas do livro.
As cenas de batalha são de tirar o fôlego. A forma como o autor narra os combates, o uso de armas e magia fazem o leitor se imaginar (quem joga, claro) em uma partida de RPG, onde os jogadores anunciam sua jogada e o mestre narra o que acontece em seguida. Eu me sentia dentro do livro, dentro do turno de combate, esperando minha vez de agir. Esperando minha vez de usar alguma arma, alguma magia contra as forças de Zamir, esperava o momento certo para usar o escudo e defender meus amigos na parede de escudos. E principalmente, ficava PUTO DA VIDA com raiva quando um aliado perecia. E não foram poucos. A vida de Ruff Ghanor e seus amigos é recheada de cenas chocantes de perdas. Assim como na trilogia Tormenta, o autor tem o hábito de matar ótimos personagens, com os quais muitos de nós nos identificamos. Fazer o quê? É a vida de quem vive pela batalha.
Leonel nos faz permanecer tanto tempo ao lado de Ruff no mosteiro que por um momento eu cheguei a esquecer que aquele era um mundo fantástico no seu sentido mais puro. Tudo estava tão resumido a treinar e treinar e treinar que acabei esquecendo que a aldeia, o mosteiro e suas vizinhanças eram apenas um ponto desgarrado de um mundo medieval fantástico, repleto de outras raças como elfos, anões, deuses, demônios e claro, dragões. Isso porque Ruff passa a maior parte de sua vida no mosteiro e em suas cercanias e nunca se aventurou pelo mundo. Então, os leitores podem acompanhar e desbravar junto com Ruff, o que há além da aldeia. E isso foi interessante, porque cheguei a ter um choque (assim como Ruff) quando apresentado a outras raças que compõe a obra.
Eu não cheguei a ouvir o NerdCast de RPG e não tenho o ArtBook (os antecessores da obra, o que deu origem ao reino de Ghanor e seu herói lendário), porém, o autor e os editores estão de parabéns, pois ninguém precisa de nada disso para compreender e amar a trama. A Lenda de Ruff Ghanor é completa por si só.

O Guia Ilustrado. Créditos: Site Jovem Nerd
A obra é toda narrada em terceira pessoa. A fluidez é tranquila, o autor usa de linguagem simples, fazendo com que a leitura flua naturalmente. Porém, aqueles que não estão acostumados com histórias medievais/fantásticas podem se perder um pouco nas descrições de cenários, monstros e batalhas, mas nada que faça o leitor se cansar da obra. Os personagens, como já dito acima, são complexos e bem construídos. Podemos acompanhar a evolução deles na trama, principalmente a de Ruff, Korin e Áxia, pois eles são crianças quando a narrativa começa. A história é quase toda linear, apenas alguns trechos são reservados para contar o passado de algum evento ou personagem mais secundário.
Mapa dos arredores do Mosteiro. Créditos: Site Jovem Nerd
A revisão está ótima, assim como a formatação e a diagramação. A capa é sensacional, mostrando o protagonista da trama e seu vilão, o motivo de tudo o que Ruff faz na vida. As letras do título da obra estão em relevo. No início do livro tem um prefácio, onde o Alexandre Ottoni explica como surgiu a ideia para o livro, e logo depois há mapas rudimentares (como se um mestre de RPG tivesse pego papel e caneta e desenhasse ele mesmo o mapa do cenário) para que os leitores possam se achar na trama sem ter de “apelar” ainda mais para a imaginação. No final do livro há um relato do autor sobre como o RPG mudou sua vida e o levou a trilhar a jornada de ser um autor e logo depois os agradecimentos. Para fechar, cada capítulo tem um número e um título.
Leonel Caldela é um dos maiores nomes da literatura fantástica nacional na atualidade. É autor da Trilogia da Tormenta, série de romances no maior cenário de RPG nacional, composta por O Inimigo do Mundo, O Crânio e o Corvo e O Terceiro Deus. Também escreveu O Caçador de Apóstolos e Deus Máquina, romances de fantasia medieval em universo próprio. Escreve, edita e traduz livros de RPG pela editora Jambô e é um dos autores do selo Fantasy – Casa da Palavra, escrevendo o Código Élfico (resenha aqui). Mora em Porto Alegre, mas sua mente e coração costumam estar em outros lugares.
Primeiramente, recomendo este livro para quem, como eu, é fã/jogador de RPG. A obra é a personificação do sonho de muitos mestres de RPG: transformar as aventuras de seus jogadores em um livro. Aos fãs de fantasia que adoram histórias de magia, guerras, raças fantásticas, batalhas épicas, esse livro também é de vocês. Aqueles que nunca leram um livro de fantasia e querem experimentar viajar por esse mundo, aqui está um ótimo ponto de partida. Nem preciso dizer que esse livro é para os fãs do Jovem Nerd, que acompanharam aquele NerdCast de RPG, onde tudo isso começou.
Rolem os dados! Por São Arnaldo!

Obs: Aqueles que adoram (não sei porque) ler o final do livro antes de começar a leitura, sugiro não fazer isso dessa vez. Assim como o autor fez em "O Crânio e o Corvo", há um Spoiler violento na última página do livro que muda completamente toda a perspectiva que temos ao longo da leitura.
Aviso dado.


Bibliografia de LEONEL CALDELA (ordem cronológica):

Livros:
  • O Inimigo do Mundo - Jambô Editora (2005) 
  • O Crânio e o Corvo - Jambô Editora (2007) 
  • O Terceiro Deus - Jambô Editora (2008) 
  • O Caçador de Apóstolos - Jambô Editora (2010)   
  • Deus Máquina - Jambô Editora (2011)  
  • O Código Élfico- Fantasy, Casa da Palavra (2013).
  • A Lenda de Ruff Ghanor –Nerd Books (2014).



Comentários
9 Comentários

9 comentários:

  1. A julgar pela empolgação do Luciano enquanto estava lendo esse livro, posso afirmar que ele é muito bom. Tá na fila de leitura.

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  2. Não sei do que gosto mais.. do livro, da capa, do fato do autor ter a ideia do livro jogando RPG ou da resenha. Incrível! E ainda me fez lembrar de um amigo que acho que vai gostar dessa obra também.. se me sobrar um dinheiro esse mês juro que compro, sério! Abraços!

    Mutações Faíscantes da Porto

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  3. Amo RPG, mas você fez a resenha tão entusiasmado que fiquei na dúvida do que gostei mais. Ainda não conheço o autor, e vai para lista de leitura e troca de livros com meu enteado. Tem um detalhe, eu leio de trás para frente SEMPRE! SEMPRE! SEMPRE!

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  4. Olá, prazer K.
    Nossa tu gostou do livro mesmo, não faz muito meu estilo, mas me deixou curiosa agora, vou dar uma procurada.
    Parabéns pelo blog.
    http://k-secretmagic.blogspot.com.br/
    Xoxo

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  5. tai algo que ando precisando ultimamente, um livro de fantasia pra sacudir a minha vida... Creio que A lenda de Ruff iria me animar bastante... Não sabia que era ele o autor de O inimigo do mundo [sou louca pra ler tb] ^^

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  6. Obrigado meninas! :)
    Eu realmente fiquei muito contente lendo esse livro. É um daqueles títulos para se guardar no quanto mais bonito da estante rs
    Maria Valéria, você precisa ler "O Inimigo do Mundo". É uma obra fantástica. \0

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  7. Achei o livro interessante, eu nunca havia ouvido falar nele e nem no autor.
    Vou dar uma procurada pra ver se o encontro.
    Meninoo eu quero um marcador daqui, KKKK

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  8. O livro é muito bom Kris. Você só vai achar ele no site do Jovem Nerd.
    Gostou do nosso marcador? *-*

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  9. Nossa Adorei. Com certeza esta na minha lista de compras :) Fantástico

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